Economia Circular e a Indústria da Moda

post economia circular
Foto: Janko Ferlic | Unsplash

Se pensarmos na maneira como a natureza funciona notamos que não existe desperdício, tudo é aproveitado, é um processo cíclico e harmônico. Agora, se analisarmos como nós, humanos, temos atuado percebemos que nossa abordagem tem sido bem diferente.

Nosso modelo econômico atual é linear, dependemos de grandes quantidades de materiais e energia baratos e de fácil acesso que são processados e transformados em produtos, que logo serão descartados. Segundo o Fórum Econômico Mundial retiramos aproximadamente 65.000 milhões de toneladas de matérias primas ao ano, mas 80% desses materiais se tornam resíduos, o que representa uma perda irrecuperável de cerca de US$2,6 trilhões por ano. Um modelo que se baseia no desperdício e na superexploração de recursos naturais é um modelo insustentável, certo?

Mas a boa notícia é que esse ciclo está sendo quebrado e novos paradigmas estão surgindo, como a Economia Circular. Esse modelo propõe repensar e redesenhar a forma como produzimos e como consumimos, onde tudo possa ser recuperado e reutilizado, como acontece nos ciclos biológicos.

E para entendermos melhor sobre esse tema e sua relação com a indústria da moda, o SDF conversou com a Alice Beyer Schuch e a Tania Gengo fundadoras da ES-Fashion, empresa pioneira na disseminação do conceito de Moda Circular no Brasil. Confira a entrevista abaixo.

1.Primeiramente poderiam contar um pouco sobre vocês e o trabalho da ES Fashion?

Nós, Alice e Tania, nos conhecemos na China e sabemos do lado obscuro que a moda pode seguir… E assim, juntando nossas especialidades – a Alice é mestre em moda sustentável e a Tania é formada em negócios de moda – a ES-fashion surgiu do desejo de usar a moda como uma ferramenta propulsora para o desenvolvimento, não apenas econômico, mas também social e ambiental, disseminando novas perspectivas em que a moda atua, sim, de forma responsável. Para isso, trazemos diversos conceitos vistos na Europa (onde a Alice mora) de forma a ajustar à realidade brasileira (onde a Tania mora). Entre os serviços da ES, estão a consultoria a empresas rumo a circularidade, a elaboração de pesquisas, treinamentos e cursos, e ainda a internacionalização, apresentando as marcas brasileiras sustentáveis ao mercado europeu.

2. O que é economia circular e como ela é aplicada na moda?

A Economia Circular é um sistema restaurativo e regenerativo por design. Isso quer dizer que quando desenvolvemos produtos, lá em sua fase embrionária, já pensamos em desenvolvê-los de forma a não prejudicar (ou até beneficiar) ao final de seu ciclo inicial o nosso capital social e natural – pessoas, água, energia, recursos. Além disso, se sugerem novos modelos de negócios para manter estes itens em uso por mais tempo para que o valor investido em sua produção não se perca após essa primeira fase. 

 Na moda, isso se aplica diretamente na melhor seleção de têxteis, escolhendo alternativas de menor impacto por exemplo, como as fibras orgânicas ou ainda recicladas. Podemos também incluir estratégias de design que favoreçam o uso contínuo ou por mais tempo de peças, suas partes e materiais utilizados. Ou ainda, aplicamos um modelo de negócio que promova trocas, compartilhamento e similares. A ideia é buscar alternativas que reduzam essa pressão sobre pessoas e total dependência em nossos recursos virgens.

3. Porque é importante pensarmos nesse modelo? E quais são os principais desafios?

A moda convencional é uma indústria que exige muito e impacta irresponsavelmente pessoas e a natureza. Em um modelo circular, onde uma visão holística é fundamental, percebemos nossas interferências e buscamos abordá-las de forma a eliminar estes impactos negativos.

Entre os desafios de se aplicar um conceito tão amplo, a mudança de mindset talvez seja o mais desafiador. Por parte empresarial, é necessário pensar de forma inovadora e disruptiva. Nosso modelo pós revolução industrial não irá trazer as respostas e soluções à essas novas questões. Além disso, é relevante se trabalhar em parcerias, dividindo informações, buscando apoio mesmo entre os assim-chamados “concorrentes” para que se saliente o poder de mudança de um grupo. Por parte do consumidor, como figura importantíssima para fechar os ciclos, por exemplo, a mudança de mentalidade e hábitos também se faz necessária. Deixaremos de ser consumidores e nos tornaremos usuários de moda… E isso envolve repensar e reavaliar nossos velhos padrões de consumo, de necessidade de ter, de compra por impulso, de ver o passeio no shopping como o momento de relax da semana…

4. Qual o papel que o design, a tecnologia, as empresas e os consumidores desempenham na realização dessa prática na moda?

O design, como o próprio conceito de EC diz, é o ponto inicial deste processo. Se produzimos algo sem um pensamento cíclico, teremos, muito provavelmente, dificuldades em reaproveitar este item dentro deste novo sistema, e o mesmo acabará sendo descartado em algum momento. A tecnologia é o que permite a aplicação de novas alternativas, seja no desenvolvimento de novos materiais ou fibras como na realização de mundos digitais que conectam mais facilmente os consumidores ou oferecem produtos de forma virtual. As empresas são o meio pelo qual inovação chegará ao usuário, mas nessa nova perspectiva, todos nós podemos nos tornar agentes de mudança e empreendedores. Grandes exemplos de moda circular estão sendo sugeridos por start-ups que já nasceram com a sustentabilidade em seu DNA. Por fim, os consumidores – que preferimos chamar usuários de moda – tem o poder de decisão quando de sua escolha por um ou outro produto, um ou outro sistema. Mesmo assim, muitos ainda não estão conscientes de seu papel, e nunca estarão. Para esses, o sistema deverá ser desenvolvido em paralelo e eles acabarão por fazer parte de forma automática, inconsciente, “indolor” (sem concessões ou sacrifícios).

5. Como as marcas e empresas do setor da moda estão adotando a economia circular em seus negócios? Poderiam nos dar alguns exemplos concretos dessa prática?

Existem muitas frentes que podem ser abordadas. Temos visto muitos materiais e processos alternativos surgindo, como couros de cogumelo ou chá, fibras de alga ou de descarte de outros setores como as cascas da laranja, ou ainda tingimento com bactérias, sem água e sem químicos tóxicos, curtimento com folha de oliveira. Existem também empresas apostando no reuso de descarte têxtil pré ou pós consumidor para a produção de novos itens de moda ou investindo em novos negócios de compartilhamento, de reuso e manutenção de roupas que já estão circulando por aí. Em todos estes aspectos, é relevante para as empresas a provisão de informação clara e objetiva sobre o que tem sido feito, como e por quem, mostrando o caminho trilhado e ainda os próximos passos a serem adotados.

6. Como vocês analisam o cenário na Europa sobre esse tema e no Brasil? E o que podemos aprender com os países que já estão mais atuantes nesse setor?

A Europa já vem oferecendo moda com baixíssimo impacto há mais de 40 anos e tem usuários muito mais predispostos a participarem dessas mudanças. Além disso, o apoio a pesquisa e desenvolvimento científico, por exemplo, ou a novos programas de impacto positivo já são o status-quo.

Quando comparamos com o Brasil, ainda estamos atrelados culturalmente à necessidade de ter mais pelo menor preço (mesmo que a qualidade não compense) e preferencialmente a mudar sempre – o carro do ano, o telefone de lançamento, a roupa da vitrine. A grande diferença é que não existem estruturas no Brasil que recolham esse material de forma a possibilitar o seu reaproveitamento. E tudo acaba indo para o lixão – com exceção de nosso belo exemplo de reciclagem de latas de alumínio! O que o Brasil deve fazer, é estar atento à estas mudanças e aplicar de forma adaptada a sua realidade sem esperar pelo apoio de iniciativas públicas, trabalhando de forma conjunta com diferentes stakeholders. A união faz a força, não é mesmo?

7. Para vocês qual o futuro da moda?

A moda no futuro se tornará algo misto, onde a tecnologia e desenvolvimento existirão a favor da natureza e das pessoas e gerará novos setores, novos tipos de trabalho e consequentemente novas formas de movimentação financeira. A democratização de uma moda sustentável, sem tóxicos, impactos negativos, de alta circulação e benéfica socialmente será o padrão oferecido. Grandes alterações poderão também ser vistas no sistema educacional, onde as mudanças deverão ser aplicadas de forma dinâmica e efetiva, instigando a criatividade investigativa mais que o seguimento de padrões e tendências, a cor da estação!

8. Para quem quiser saber mais sobre economia circular poderiam dar sugestões de livros e/ou sites?

Fundação Ellen MacArthur tem feito um trabalho exemplar em muitos setores. Suas inúmeras publicações nos dão uma base claríssima das possibilidades deste novo sistema, inclusive com estudos sendo iniciados na área de moda. No Brasil, temos a Exchange 4 Change fazendo um trabalho voltado exclusivamente para nosso país, que acaba de lançar o primeiro livro em português sobre o tema. Leitura fundamental também são os livros Cradle to Cradle, The Upcycle e ainda Waste to Wealth que, apesar de não serem específicos para a moda, nos abrem o olhar para uma visão holística e sistêmica de nossas ações. O site da ES ainda tem uma biblioteca onde atualiza regularmente publicações do Brasil ou traduzidas sobre o assunto.

Para saber mais sobre ES-Fashion e acompanhar seus projetos acesse o site: http://es-fashion.net/  e acompanhe seu Blog e Instagram.

 

Como gerar impactos sociais e promover ações positivas na moda, conheça o Instituto Ecotece

MarianaJungmann_alta-9730 (1)
[Grupo de Mães Oca – um dos 16 grupos apoiados pelo Ecotece]

A relação entre moda e sustentabilidade é um tema recente no país, mas que está gradualmente ganhando importância e visibilidade já que estamos mais informados e conscientes sobre os inúmeros problemas encontrados na indústria da moda atualmente.

Sabemos que precisamos mudar nossa maneira de atuar para construir uma moda que respeita às pessoas e o planeta e, para nos auxiliar nessa transformação surge o Instituto Ecotece que há mais de 10 anos atua com a temática da moda sustentável no país.

O Ecotece acredita que “pode-se abrir caminhos de mudança e tecer um mundo melhor humanizando os processos produtivos e promovendo mais inclusão, satisfação e conexão entre os envolvidos da cadeia da moda: criadores, produtores e consumidores”.

O SDF conversou com a Lía Spínola, diretora do Instituto, para nos contar sobre o trabalho que desenvolvem e como geram impactos sociais e promovem juntamente às marcas, designers e grupos produtivos ações positivas na moda e na vida de cada um.

1.  Poderia nos contar como surgiu o Ecotece e qual a missão do Instituto?

O Instituto Ecotece é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) fundada em 2005, pela jornalista Ana Candida Zanesco que visa gerar soluções criativas na moda por meio da educação e do desenvolvimento de produtos sustentáveis.

Na época a Ana Zanesco trabalhava como assessora de imprensa de um desfile voltado para estudantes, que já não existe mais, o Eco Fashion Brasil. Devido a esse trabalho a Ana foi buscar informações sobre moda e sustentabilidade e percebeu que não existiam ou que eram de difícil acesso, no Brasil não tinha nada sobre o assunto e lá fora ainda era um tema incipiente. Então a Ecotece nasce como um portal que reunia informações, cases, estudos, pessoas, um pouco de tudo relacionando o que significava sustentabilidade e moda, um portal um pouco mais acadêmico.

A missão do Ecotece é construir uma cadeia de moda mais humana e sustentável, que promova a produção e o consumo responsáveis, a proteção do meio ambiente e inclusão social.

2. Como vocês atuam e quais serviços oferecem?

Nesses 11 anos muita coisa aconteceu no Ecotece, deixamos de ser um portal de informação e atualmente trabalhamos desenvolvendo projetos em três frentes de atuação: educação, desenvolvimento de produtos e fomento social.

Na área de educação, no momento, trabalhamos com 3 projetos principais:

·         Comunidade Ecofashion: projeto que usa a moda como um meio facilitador para trabalharmos assuntos complexos junto às crianças das periferias de Mauá e Santo André. Através de oficinas de desenvolvimento de produtos com materiais recicláveis, levantamos esses assuntos, confeccionamos roupas que depois são desfiladas e, por fim acontece uma exposição. São 10 escolas, 300 crianças impactadas, e agora em 2017 vamos ter a exposição do projeto do ano passado e começaremos um novo Comunidade Ecofashion que dobrará de tamanho, trabalharemos com 600 crianças.

·         Renda Renascença, estudamos e promovemos cursos no Instituto já há muitos anos ligados a essa técnica. A proposta é que possamos compreender melhor a técnica da renda e também “popularizar” no sentido de que mais pessoas tenha acesso a esse aprendizado, pois hoje em dia está muito restrito, são mulheres no nordestes já senhoras, enfim tem pouca gente produzindo.

·         Também organizamos palestras e algumas atuações junto às empresas.

A segunda área do Ecotece é o desenvolvimento de produtos e a terceira é o fomento social, essas duas áreas estão superconectadas.

O principal projeto da frente desenvolvimento de produtos é o Ecotece +: a proposta é fazer parcerias com marcas de moda que estejam alinhadas aos nossos valores, como uma consultoria, trabalhamos com essas marcas no primeiro momento, auxiliando nos produtos que irão produzir. Nossos expertises são: a) consultoria de materiais – parcerias e mapeamento com todos fornecedores de matérias-primas brasileiras;

b) desenvolvimento de produtos – producão de modelagem, ficha técnica e graduação;

c) depois que esse produto está pensado e fechado, o Ecotece tem um serviço de gestão produtiva, que está conectado com a nossa terceira frente de atuação, o fomento social.

A gestão produtiva é sempre realizada com a nossa rede de grupos, hoje são 16 grupos apoiados.  São sempre grupos em situação de alguma vulnerabilidade e grupos ligados ao Comércio Justo e a Economia Solidária, sendo uma das principais características a alto gestão.

Hoje, temos dois perfis principais na nossa rede: grupos de mulheres dentro de comunidades carentes e grupos da saúde mental. Cada grupo vai ter uma especialidade distinta, por exemplo, grupo de costura, no qual é dividido por: grupo de malharia, tecido plano e sempre separado por níveis. Tem grupos que já estão em uma fase mais avançada, que costuram muito bem e que conseguem produzir peças mais complexas, e temos também grupos de costura de base que fazem sacolas, por exemplo, que entendemos que é a primeira etapa.

Também temos diversos grupos artesanais, com técnicas de tricô, crochê, renda renascença, tear e técnicas de estampa.

A gente atua com os grupos de duas maneiras:

·         Através de incubações para grupos, com o programa Lab Moda Mais, apoiamos grupos em três frentes principais: a) comercial e negócios – basicamente seria o grupo entender bem o que ele tem de expertise e que nível que está e como ele se conecta com o mercado (perfil de cliente e como chegar nele). Nesse programa temos um módulo com várias etapas que são trabalhadas dentro das incubações ligadas a esse tema; b) a outra frente é ligada a técnica – desenvolvimento para que eles estejam cada vez melhores naquilo que eles fazem; c) e o terceiro assunto é a gestão produtiva – trabalhamos questões como, calendário, qualidade, organização da produção.

Todos os grupos que são incubados continuam na nossa rede, vamos captando demandas específicas para esses grupos, acompanhando a produção e auxiliando o grupo em tudo que for necessário principalmente nos três aspectos mencionados acima.

3. Qual o perfil das marcas que trabalham com o Instituto?

São sempre marcas que a gente acredita que esteja aliada com o que acreditamos e com os nossos valores. Não necessariamente sejam marcas sustentáveis, hoje temos três principais tipos de marcas que chegam até nós:

– Marcas que já tem um DNA sustentável dentro delas há muito tempo, como é o caso da marca Flavia Aranha, parceira Ecotece já há muitos anos.

– Marcas jovens e, é o que tem acontecido bastante nos últimos anos, várias marcas que já nascem com a questão da sustentabilidade, então temos um braço que vai apoiar a implementação dessas marcas novas.  

– Marcas que não são sustentáveis, mas estão começando a repensar seus processos e pouco a pouco estão mudando as suas políticas e a sua cadeia produtiva, por exemplo, o projeto que fizemos com a marca Cavalera.

4. O Instituto Ecotece trabalha há mais de 10 anos com moda sustentável, como vocês analisam a evolução do tema nos últimos anos? Acreditam que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas?

Eu acredito que estamos evoluindo muito, quando o Ecotece nasceu não existia nenhuma relação entre sustentabilidade e moda, durante vários anos, a gente se aproximou de empresas e indústrias de outros setores, pois o diálogo com a moda era inexistente e muito difícil no começo, não havia abertura.

Então, acredito que as coisas estão mudando muito, acho que primeiro vieram novas marcas, de pessoas que estavam saindo da faculdade ou tinham estudado fora do Brasil, pessoas engajadas querendo lançar marcas e projetos já com esse conceito.

E agora eu vejo também uma mudança nas marcas já estabelecidas, é bastante recente, mas está ganhando poder. Estamos vendo grandes empresas, varejistas, como C&A, com institutos que estão mudando sua missão e focando na questão de sustentabilidade.

Muita coisa tem acontecido e muita coisa ainda vai acontecer, mas ainda estamos engatinhando. Notemos pesquisas aqui no Ecotece que dizem que a moda está 20 anos atrás, em termos de consciência do consumidor, da indústria de alimentos, particularmente acredito que estamos ainda mais longe.

5. Para vocês, qual é o principal problema da indústria da moda atualmente e como o Ecotece colabora para a mudança?

Acho que todos, a indústria da moda é muito complexa, ela é muito grande e há problemas em todas as etapas da cadeia, desde a plantação da matéria-prima até chegar na utilização das roupas pelos consumidores.

Eu acredito que não existe nenhuma solução pré-pronta e que nenhum projeto nem nenhuma empresa vai conseguir lidar com esse assunto na sua totalidade. Então, eu acredito que a mudança está aí entre esses diversos atores, projetos e empresas que estão engajados em atuar em algum ponto dessa problemática.

No caso do Ecotece, já fizemos muitas coisas e atuamos em diversos assuntos e, para os próximos anos, temos como diretriz a atuação na humanização dos processos produtivos, promovendo mais inclusão, satisfação e conexão entre os envolvidos da cadeia de moda, criadores, produtores e consumidores. Então, estamos muito focados nessa conexão das marcas de moda junto aos grupos que produzem, tanto no fortalecimento dessa relação quanto, também trazendo pessoas que de alguma maneira trabalham com moda mas que não conseguem atuar de uma maneira ética ou fortalecida junto a esse mercado.

6. Hoje, fala-se muito sobre comércio justo/fairtrade, porque devemos dar atenção a esse tema? E como saber se uma marca/empresa realmente pratica o Comércio Justo?

Acredito que o Comércio Justo é bastante importante em relação à descentralização do dinheiro, é conseguir distribuir melhor os poderes e as parcerias, levando trabalhos, por exemplo, para as comunidades ou para grupos e empresas menores, mais distantes que estão dentro de comunidades e fomentando mais o empreendedorismo.

O Comércio Justo possui diversas diretrizes de valorização bastante importantes que tem um bom diálogo com a moda.

Agora para saber se uma marca realmente pratica o comércio justo é complicado, certo?! Porque não temos como saber exatamente o que está acontecendo dentro de uma marca, mas quanto mais transparente, contar histórias e demonstrar um pouco do que estão fazendo mais podemos conhecer sobre a marca e seus processos.

No olhar do consumidor é sempre mais complexo, acredito que tem que reparar nas parcerias, por exemplo, quando uma marca se associa ao Ecotece, por exemplo, nós podemos garantir o que está sendo feito dentro do Instituto, tudo está alinhado às políticas do Comércio Justo, não nos associamos com qualquer um.

Mas, claro não temos como garantir que todas as coisas são corretas dentro da marca, porque isso é inviável, porque nem grandes auditores tem como auditar uma marca hoje. Infelizmente ou felizmente vamos ainda pelo bom senso e confiança, porém, infelizmente, não é possível confiar em tudo que as marcas fazem.

7. Para vocês qual a importância da valorização da mão de obra e desenvolvimento de comunidades na indústria da moda?

A importância é que basicamente quando falamos em moda sustentável um dos principais pilares é a valorização das pessoas, e parte dessa questão, não sua totalidade, está ligada também ao dinheiro, a promover boas relações de trabalho, abertura para o diálogo e boas condições de trabalho. Acho que essa é a grande questão.

Em termo de desenvolvimento das comunidades é o que já comentei sobre a descentralização dos recursos.

8. Qual o papel dos consumidores para ajudar a construir uma moda mais justa e sustentável?

Eu acho que temos muito poder como consumidores, às vezes eu penso que temos mais poder como consumidores do que como eleitores, por exemplo. Isso no sentido de que nós estamos fazendo as escolhas com muito mais proximidade. No momento em que você decide ir a uma loja tal, comprar a roupa tal que é feita por tal material, por mais que ainda temos dificuldades de compreender o que está por trás dessa peça, por trás dessa empresa, acho que ainda conseguimos ter mais informações do que, por exemplo, do candidato que vamos votar. A gente entre na loja, pega peça, pode ver o que tem dentro, tem uma etiqueta, falar com os vendedores, com o dono,cada vez mais a mídia e os sites das empresas contam muita coisa.

Para saber mais sobre o Instituto Ecotece e acompanhar seus projetos acesse o site: http://ecotece.org.br e acompanhe suas redes sociais: Instagram e Facebook  

Faça parte da revolução da moda! Conheça o movimento Fashion Revolution Brasil

3_post_blog
campanha fashion revolution #quemfezminhasroupas #whomademyclothes

Uma das maiores tragédias industriais da história, o desabamento do edifício Rana Plaza que abrigava um complexo de fábricas têxteis em Bangladesh, marcou para sempre a indústria da moda. No dia 24 de abril de 2013, mais de mil trabalhadores morreram após o edifício ruir, tornando-se símbolo do descaso dos direitos de trabalhadores presente no setor.

Logo após essa fatalidade, o movimento global Fashion Revolution nasceu para convidar as pessoas a usarem o poder da moda para mudar a história dos trabalhadores ao redor do mundo, tornando-a uma força para o bem.

“We believe in an industry that values people, the environment, creativity and profit in equal measure. Our mission is to bring everyone together to make that happen” Fashion Revolution.

 O SDF conversou com a Eloisa Artuso, Coordenadora Educacional do Fashion Revolution Brasil, para nos contar um pouco mais sobre a história do movimento e sua atuação no país.

 Vamos fazer parte dessa revolução!

 Conte para a gente como o movimento surgiu e desde quando está aqui no Brasil?

O Fashion Revolution é um movimento global, presente em mais de 90 países, criado pela Carry Somers e Orsola de Castro, que acompanhadas de um grupo de estilistas, acadêmicos, imprensa e ativistas, decidiram dar um basta nas condições degradantes de trabalho escondidas na cadeia produtiva da moda.

O desabamento do Rana Plaza, em Bangladesh, em 24 de abril de 2013, serviu de marco para o surgimento da campanha, que tem como objetivo conscientizar os consumidores sobre os verdadeiros impactos ambientais e sociais causados pela indústria da moda no mundo e, ao mesmo, celebrar quem já trabalha na construção de um futuro mais transparente e  justo para todos. Ele chegou no Brasil através da Fernanda Simon, que, logo no primeiro ano de celebração, em 2014, trouxe a discussão para diferentes eventos de moda, design e sustentabilidade.

Quais são os principais objetivos do Fashion Revolution? E como ele atua?

O movimento surgiu com os objetivos de:

• aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seus impactos em

todas as fases do processo de produção e consumo;

• mostrar ao mundo que a mudança é possível através da celebração dos envolvidos na criação de um futuro mais sustentável;

• criar conexões e trabalhar rumo à mudanças de longo prazo, exigindo transparência

na indústria e nos negócios.

O Fashion Revolution atua com bastante força nos canais de comunicação online e também propõe palestras, eventos e ações ao redor do mundo através de 2 grande frentes, a de informação/educação e sensibilização/conscientização.

Vocês acreditam que está havendo uma mudança no comportamento dos consumidores em relação ao consumo de moda? Porque acreditam que isso está acontecendo e como o movimento colabora para essa mudança?

No Brasil, ainda é bastante recente a discussão sobre sustentabilidade e consumo consciente na moda, mas já é possível sentir uma diferença de comportamento consumidor. Ainda são poucos os que realmente se interessam pela origem dos produtos e questionam de fato o que consomem, mas já dá pra notar que esse mercado (independente) está crescendo com rapidez, tanto por vontade das marcas, quanto dos consumidores.

O Fashion Revolution colabora ao incentivar as pessoas a questionarem as marcas sobre a origem de suas roupas (calçados, bolsas, joias e acessórios também valem) e exigirem maior transparência com relação aos seus modelos de negócio. Esse é o primeiro passo para uma abertura de diálogo entre produtor-marca-consumidor, uma maneira de reconectar os elos perdidos em uma cadeia tão complexa como a da moda. Essa pergunta também ajuda a abrir os olhos do consumidor, que passa a ficar mais informado e consciente sobre o que realmente pode estar por trás do que vestimos.

Como vocês avaliam as ações e resultados desde o primeiro ano do movimento?

Os resultados têm sido bastante animadores, o número de pessoas envolvidas com o movimento, seja como colaborador, parceiro ou audiência cresce com bastante rapidez. Só aqui no Brasil, em 2016, tivemos 54 eventos em 29 cidades durante a Fashion Revolution Week (24 a 30 de abril) e a participação de mais de 30 faculdades de moda na campanha, isso sem contar todo o fluxo nas mídias. Além disso, tivemos a ação de conscientização, Fashion Experience, por 2 vezes na cidade de São Paulo, sensibilizando mais de 2 mil pessoas.

O movimento tem uma forte atuação nas instituições de ensino de moda, para vocês, qual a importância da educação e papel dos estudantes para modificar o cenário atual do setor?

O papel da educação é extremamente importante, já que as faculdades são responsáveis pela qualidade de profissionais que entrarão no mercado e passarão a tomar as decisões no futuro, e essas decisões geram consequências para todos. Não se pode fechar os olhos para as questões éticas e de sustentabilidade só porque elas representam desafios para o sistema de mercado vigente, na verdade, elas devem ser encaradas como soluções para o futuro, que depende inteiramente de pessoas bem preparadas para enfrentá-los.

Como as pessoas podem participar do Fashion Revolution?

O movimento é aberto para todos os amantes da moda e aqueles que acreditam no poder de transformação. A maneira mais fácil de participar e apoiar o movimento é postando uma selfie e perguntando à marca que está vestindo: “quem fez minhas roupas?” e usando as hashtags: #whomademyclothes #quemfezminhasroupas #fashrev. Para quem quiser saber mais sobre o movimento, como participar da campanha ou de eventos, podem acompanhar o Fashion Revolution Brasil através das nossas redes sociais:

Facebook: fashionrevolution.brasil

Instagram: @fash_rev_brasil

Twitter: @Fash_Rev_BRASIL

www.fashionrevolution.org

O que vocês esperam do movimento para os próximos anos?

Esperamos que ele continue crescendo e tenha uma vida longa aqui no Brasil e ao redor do mundo, informando, conscientizando e envolvendo cada vez mais consumidores, marcas, indústria, imprensa e governos na a criação de melhores condições de trabalho, processos mais limpos e formas de consumo mais conscientes.

Acompanhe o movimento pelo site www.fashionrevolution.org e suas redes sociais.

>> Fashion Revolution Week 2017 | Brasil <<

 Para realização da Fashion Revolution Week 2017, que acontecerá nos dias 24 a 30 de abril, o Fashion Revolution Brasil está com uma campanha de financiamento coletivo no site Benfeitoria e conta com a ajuda de todos os revolucionários da moda para fazer acontecer!

 Com o valor arrecadado será possível a produção de 4 grandes eventos nacionais, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, que contarão com workshops práticos, exposições, exibições de filmes, entre outras atividades.

Para cada contribuição, o Fashion Revolution Brasil preparou várias recompensas. Informações sobre a campanha aqui. Colabore 🙂

Sobre sustentabilidade e gratidão

Você conhece a expressão japonesa Mottainai? Tiemi Yamashita, especialista em sustentabilidade nos contou tudo sobre esse conceito.

5-post_blog2
foto por Gaelle Marcel, site unsplash

Já falamos no Blog SDF que hoje tratamos nossas roupas e muitas coisas que compramos como bens descartáveis, gerando quantidades imensas de resíduos e impactos negativos ao planeta. Mas aqui vem mais uma bela razão do porque precisamos repensar essa cultura do use e descarte!

Mottainai, significa “o não desperdício”. Essa expressão japonesa nos ensina a “reconhecer o valor de todos os recursos ao nosso redor e, a partir disso, aproveitar tudo com respeito e gratidão, eliminando o desperdício”.

tiemi-felicidade
Tiemi Yamashita

O SDF conversou com Tiemi Yamashita, referência em Mottainai no Brasil, criadora de projetos inovadores que mesclam responsabilidade socioambiental e desenvolvimento humano como Desafio do Bem e Caia na Real, além de professora convidada nos módulos de sustentabilidade dos cursos de MBA do Biinternational School e pela Faculdade Cásper Libero de São Paulo, para nos explicar esse conceito e como podemos aplicá-lo no nosso dia a dia para consumirmos com mais consciência e sem desperdício.

Primeiramente poderia contar um pouco de sua história e sua relação com o tema sustentabilidade?

Neta de japoneses, cresci dentro de uma cultura em que não se desperdiça nenhum tipo de recurso, pois tudo tem seu valor e precisa ser respeitado e valorizado.  Confesso que eu não entendia e até reclamava de ficar aproveitando a água da chuva, reaproveitando embalagens de margarina, usando roupas que já foram usadas pelos irmãos mais velhos. Mas depois de adulta fui fazer um curso de especialização em Sustentabilidade e descobri que o primeiro passo para praticarmos a sustentabilidade  é eliminar os desperdícios. Entendi que eu já praticava sustentabilidade desde pequena.

O que significa Mottainai e qual sua importância na cultura japonesa? E como ele está relacionado com a sustentabilidade?

Mottainai é uma expressão japonesa que geralmente quer dizer “desperdício” porém, o verdadeiro significado da palavra é MOTTAI –  DIGNO   e NAI – NÃO , ou seja   na verdade o significado é “não ser digno”.

Quando você escuta um japonês dizer “Mottainai”, ele não está simplesmente dizendo “que desperdício”  ele está dizendo “você não está sendo digno deste recurso!”.  Acho que isso é o cerne da sustentabilidade, se nós formos dignos de todos os recursos que possuímos, teremos atitudes mais sustentáveis.

Você acredita que o conceito Mottainai colabora com a vida das pessoas?

Sim, quando entendemos o conceito do Mottainai, passamos a ter escolhas mais conscientes.  Não só entendemos, mas principalmente sentimos os desperdícios e por isso fazemos escolhas  mais  sustentáveis.

Como você analisa o consumo na sociedade atual e como nos relacionamos com o desperdício?

O consumo na sociedade atual é insustentável. Um consumo focado no “TER” para ostentar.  É preciso lembrar que quando se compra algo ele é seu 24 horas por dia e 7 dias da semana. E quanto você de fato usa?  Pensar em sustentabilidade é pensar na usabilidade de tudo o que se consome.

Já faz alguns anos que os temas sustentabilidade e consumo consciente vem ganhando cada vez mais destaque, na sua opinião as pessoas e empresas estão realmente se preocupando com as questões socioambientais? Você acredita que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas?

Sim, principalmente com a crise econômica que está provocando mudanças em todos os níveis. A falta de dinheiro para comprar as roupas novas, está fazendo com que sejam aceitas novas formas de consumir ou de reaproveitar ou reciclar. As pessoas estão mudando para casas menores e estão tendo que escolher o que realmente importa, percebendo que ter demais também dá trabalho. Tem uma frase que diz assim: Quanto menos eu consumo, percebo que menos eu preciso. Quanto menos eu preciso, mais livre me sinto.

Consumir menos não é se sentir mais pobre ou inferior, é entender que precisamos de menos e consumir menos é libertador.

Como praticar o Mottainai no dia a dia e consumir de forma consciente em um mundo cheio de excessos?

Para praticar o Mottainai é preciso seguir 3 passos simples:

  1. Dar o valor –  Isto é, se perguntar: Qual o real valor deste recurso? Indo muito além do valor monetário. Por exemplo, qual o valor da água para minha vida?

  2. Reconhecer a Cadeia –  Reconhecer que para esse recurso chegar até você, ele passa por uma longa cadeia de extração, produção e comercialização. Um alimento passa por milhares de mãos, dezenas de processos até chegar a sua mesa. Com o objetivo de nos alimentar.

  3. Sentimento de Gratidão –  Depois de dar o valor e reconhecer a cadeia, sentimos gratidão por termos acesso a este recurso, pois muitas pessoas no planeta não tem acesso a recursos básicos.

E como podemos demonstrar Gratidão de forma concreta? Não desperdiçando nada.

Nesse vídeo a Tiemi Yamashita fala um pouco mais sobre consumo consciente e sustentabilidade, vale a pena conferir.

Para saber mais sobre o Mottainai e o trabalho da Tiemi acompanhe seu site e canal no youtube.

Site: www.mottainaisustentabilidade.com.br

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCB7v-F6nkvyV-vNlXqVrMbQ

Email: tiemi@mottainaisustentabilidade.com.br

Brechó não é coisa do passado, confira a entrevista com Ana Mastrochirico criadora do site Garimpo Mag

41_post_blog

Comprar em brechós não é nenhuma novidade, seja para encontrar roupas de décadas passadas e exclusivas ou simplesmente para economizar, o garimpo de peças é um hábito antigo e está ganhando cada vez mais força nesse momento em que estamos repensando nossos hábitos de consumo, já que optar por comprar peças de segunda mão, reutilizando-as e estendendo seu ciclo de vida, parece ser a opção mais sustentável que há.

20160731_160726
Ana Mastrochirico

O mercado de brechós no Brasil também foi impulsionado pela crise econômica que estamos vivendo, o aumento de lojas, principalmente, virtuais oferecem bons produtos a preços mais acessíveis. O setor movimenta 5 milhões por ano no país.

Para conhecer mais sobre esse universo convidamos a Ana Mastrochirico, designer gráfica e idealizadora do site Garimpo Mag, para contar um pouco sobre sua experiência no garimpo de roupas e ajudar aqueles que ainda não se aventuraram entre as araras cheias de peças com histórias.

1. Conte para nós um pouquinho sobre seu site e de onde surgiu seu interesse por brechós e por garimpo de peças.

A Garimpo foi uma consequência do hábito de comprar em brechós. Essa prática vem de família, minha mãe sempre ia em brechós e me levava junto. Quando mais nova não entendia o quanto isso tinha algo de positivo, mas depois de mais velha, já na universidade adotei cada vez mais esse hábito. No primeiro momento era uma questão de gostar apenas, é muito bom achar uma peça de roupa única pra chamar de sua e que ninguém mais vai ter, a exclusividade era o que mais me atraia.

Como sempre estava usando looks de brechós e as amigas elogiavam e perguntavam como eu achava essas coisas legais, resolvi começar uma página no facebook pra falar sobre o assunto, mostrar as peças que encontrava e indicar brechós na cidade de Vitória – ES, onde morava. Quando vi que eu gostava mesmo de falar sobre brechós resolvi começar o blog. Isso já tem uns 3 anos.

Em 2015 passei o ano todo fazendo o projeto #365diasdebrecho. A proposta que cumpri foi ficar 1 ano inteiro usando apenas peças de second hand e brechós, pra mostrar que dava sim para adotar uma nova forma de consumo. Nesse tempo meu olhar sobre o assunto foi amadurecendo e também comecei a vender algumas roupas que selecionava em minhas idas aos brechós como uma forma de fazer um ciclo sustentável de consumo. O blog foi importante para falar sobre a experiência e abordar cada vez mais assuntos relacionados ao consumo consciente também.

2. Para você o que é mais importante ao comprar uma roupa em um brechó?

O mais importante é a qualidade, nesse sentido analiso bem para ver se não tem defeitos. Além disso gosto de roupas vintage, com uma carinha mais diferenciada, coisas que a gente não encontra em lojas comuns. E gosto de escolher peças que possam combinar com o que tenho em casa. Ter um guarda-roupa reduzido ajuda muito nessa hora, fica mais fácil pensar nas possibilidades de combinações na hora que estou garimpando.

3. Você acredita que existe uma nova tendência de consumo em brechós? Porque acha que isso está acontecendo?

Sim, acredito! São vários fatores, mas acho que atualmente o principal deles é crise financeira pela qual o país está passando. O poder aquisitivo diminuiu e as pessoas encontraram outra forma de consumir e até empreender, por isso essa tendência de surgimento de mais brechós. As pessoas compram nos brechós por conta do preço baixo e com o tempo começam a perceber que esse é um mercado rentável e que envolve também responsabilidade ambiental, ou seja, acredito que comprar em brechós está se tornando uma tendência pela facilidade e necessidade. Espero que essa tendência fique por um bom tempo, pois acho que ter essa consciência de um consumo baseado em reutilização é o futuro.

4. Quais principais conselhos que você daria para alguém antes de comprar em um brechó? 

Hoje existem vários tipos de brechós, aqueles que são bagunçados e realmente cheiram a naftalina e outros que são um pouquinho mais gourmetizados e que já tem uma pré-seleção das peças. Nesse último é como comprar em uma loja, pois tudo é bem organizado. Mas, pra quem prefere garimpar MESMO, o melhor lugar pra achar peças vintage são os brechós bagunçadinhos. Nesse caso, é sempre bom ter olhos atentos, visualizar bem as peças e principalmente experimentar antes de comprar, uma vez que as modelagens de roupas antigas são um pouco enganadoras.

Em relação a tecidos e estilos vai muito do gosto pessoal. No meu caso, quando entro em um brechó vou primeiro nas peças com estampas, que normalmente são lindas e muitos bem trabalhadas. Prefiro peças de linho e de preferência com uma modelagem bem diferente. Acho que o bacana de um brechó é encontrar roupas de outras décadas, elas tem uma qualidade muito maior do que as produzidas hoje em dia. Acho que não vale a pena ir em um brechó pra comprar uma roupa da coleção passada de uma fast fashion, sabe!? Ao fim, garimpar em brechó é uma questão de prática, uma forma também de exercitar nossos gostos e conhecer melhor nosso corpo.

5. Na sua opinião quais são as principais barreiras que impedem que muita gente ainda não compre em brechós ou roupas de segunda mão? E como mudar isso?

Acho que ainda existe um certo preconceito, e pelo que vejo, no interior isso é ainda mais forte. As pessoas tem vergonha de serem vistas comprando roupas usadas. Em outros casos é só uma questão de falta de hábito, a pessoa nunca foi, nunca comprou, e nunca precisou, então não vê motivos pra usar roupas usadas.

Por outro lado, todo mundo que entra uma vez em um brechó e encontra uma peça linda pra chamar de sua volta a comprar sempre! Querendo ou não, acho que é tudo uma questão de tendência e informação. Se a amiga compra, a pessoa se sente influenciada a comprar, ou seja, tendência. E quanto mais a pessoa tem informações a respeito do assunto mais ela se sente a vontade para aderir aos brechós. É por isso que a Garimpo existe, a ideia é mostrar para as pessoas que o brechó tem coisa boa sim, e que dá pra se vestir muito bem e ainda contribuir para o meio ambiente, mesmo que indiretamente.

6. Estamos vivendo um momento de repensar nossos hábitos de consumo como você acha que a cultura de brechó e peças de segunda mão colaboram com isso?

Acho que a cultura de brechó é o primeiro passo em direção ao consumo consciente. Pois é prático, é mais comum, é acessível, e é a partir daí que as pessoas passam a se questionar sobre outros assuntos que envolvem seus hábitos de consumo. Ficamos muito tempo condicionados as fast fashions, não existia um questionamento tão ativo sobre o consumo desenfreado como existe hoje.

O brechó é na verdade a porta de entrada para hábitos mais saudáveis de consumo. Muitas pessoas ainda não se dão conta disso e por isso é importante falar cada vez mais sobre o assunto. Pode ser que isso não salve o mundo, mas que vai ser um passo para mudanças maiores, isso vai.

7. Poderia dar algumas dicas de brechós que você conhece e que vale a pena conhecer?

Acho legal falar de alguns online, que estão com peças bem legais e conteúdo bacana. E assim também todo mundo pode ter acesso:

Garimpário – É um brechó lá do Sul, pra quem está procurando peças diferentes e casacos mais pesados é uma ótima pedida.

Alabama Hotel – É um brechó relativamente novo, mas eles estão fazendo um trabalho bem legal com conteúdo e editoriais bem bacanas.

Aurora Rouparia – É um brechó com peças antigas, mas com uma pegada bem moderninha. Tem de tudo um pouco e um precinho bem camarada.

No insta também tem muito brechós legais, que fazem vendas como se fosse numa loja online:

@velharia_brecho – Peças vintage muito bem selecionadas, enviam pro Brasil todo

@saravabrecho – Nesse tem roupas pra meninas e meninos. O feed é bem legal, vale a pena dar uma olhada.

@ogarimpobrecho – Esse é o meu brechó, por lá vendo peças que garimpo em brechós em SP. Tudo feito com muito amor e carinho.

Acompanhe o site Garimpo Mag e fique sabendo tudo sobre brechós, garimpo de peças e consumo consciente.

Conheça também outros brechós e iniciativas no site SDF 🙂

Porque consumimos? Hilaine Yaccoub fala sobre o consumo e a moda

28_post_blog

Repensar nossos hábitos e comportamentos de consumo é um dos assuntos mais comentados atualmente. Mas o que é o ato de consumir na sua essência? Porque consumimos? Essas e outras dúvidas foram respondidas pela antropóloga Hilaine Yaccoub em entrevista ao Slow Down Fashion.

ENSAIO DE HILAINE YACCOUB - NITERÓI - 24/07/2015 - FOTO: ILAN PELLENBERG

Hilaine Yaccoub é doutora (PhD) em Antropologia do Consumo (UFF-RJ) e atua como consultora independente, pesquisadora, escritora, palestrante, e, atualmente também realiza coaching e mentoria individuais ou em grupo e em empresas que desejam aumentar repertório analítico e conhecimento sobre temas relacionados ao consumo contemporâneo e comportamentos socioculturais. Também é professora do Instituto Europeu de Design (IED), da Fundação Getúlio Vargas (MBA em Negócios de Luxo) e professora visitante do Mestrado em Marketing da Universidade Javeriana em Cali, na Colômbia. É também co-criadora do MBA em Estratégias e Ciências do Consumo da ESPM, no Rio. Veja  sua biografia completa aqui.

Confira abaixo esse bate-papo super interessante sobre comportamento de consumo e moda.

Sabemos que o ato de consumir é muito mais do que adquirir itens destinados à sobrevivência.  Diante disso, como podemos explicar o consumo na sociedade atual?

O consumo é um tema complexo por si mesmo. É uma forma de mantermos vivos mas também de nos diferenciar, de construir significados sobre quem somos, de onde viemos, nossa tradição e pra onde queremos ir. É um norteador de um processo social que vai se construindo antes mesmo de nascermos. Somos o que somos porque comemos certos alimentos, nos vestimos de determinada maneira, assistimos uma gama de canais ou seriados, gostamos de certo estilo de música…todo nosso mundo concreto está voltado para escolhas que são expressas através do gosto que é regido por uma hierarquia cultural de desejos.

E qual o perfil do consumidor contemporâneo no brasil?

Multifacetado, plural, diverso. Em cada grupo sociocultural ou etário temos a diversidade como mote norteador. Não há um perfil e sim perfis e cada grupo constrói uma gramática própria de como viver bem, o que é prestigioso, o que é bom e de qualidade etc… Satisfações são diversificadas e cada grupo procura seu próprio caminho e estilo de vida que melhor irá compor sua lógica de pensamento e vida.

“Busca-se o tempo todo coisas novas que, ao final não dão satisfação. Cada vez temos mais coisas, mas não significa que estamos mais felizes”, você concorda com essa frase do filósofo francês Gilles Lipovetsky? Porque ainda buscamos essa “fórmula da felicidade” que já se demonstrou falida?

Falida até a segunda página. Se fosse falida não teríamos o consumismo, o exagero ao consumo, como uma das principais expressões da sociedade contemporânea. O gosto pela novidade pode ser explicado, pelo fato do consumidor acreditar que os produtos desconhecidos são potencialmente mais prazerosos, pois os desejos e as imagens a eles atribuídos nunca foram colocados à prova da realidade. No entanto, consumir é um aprendizado. Quando passamos por escassez e ganhamos dinheiro nos vemos “freak descontrol” para comprar tudo que sempre sonhamos, de repente. Passado um tempo vemos que quanto mais coisas, mais tempo devemos ter para cuidar delas, e aí se é colocado a prova. Ou teremos que ser mais minimalistas e apostar em durabilidade ou vamos comprar tudo e depois ter lugar pra guardar, tempo para limpar, dinheiro para contratar funcionários que nos ajudem no dia a dia a lidar com o esse estilo de vida. A abundância nem sempre está na quantidade.

Como você avalia o comportamento de consumo de moda? Quais as principais motivações de compra?

Depende do grupo que estamos lidando, mas no geral é por distinção e inclusão social. A antropóloga Mary Douglas disse no seu livro (em parceria com o economista Baron Isherwood) que os bens são neutros, os significados que atribuímos a eles é que os elevam a cercas ou pontos. O que isso quer dizer? Se eu for antenada com a moda e consumir algo extremamente novo eu estou sendo incluída em um grupo percebido como fashionista, ou antenado, ou moderno etc… e assim mesmo eu me diferencio dos demais criando cercas. Mas em relação ao mundo da moda o produto que consumi é uma ponte, pois me liga a esse mundo pautado na diferenciação, ao novo, a arte etc. Construímos identidades através do consumo, a moda é uma dimensão dessa construção, inclusive para aqueles que não se percebem consumindo moda. Acredito que a cena do Diabo veste Prada foi emblemática para ilustrar este contexto quando a Miranda responde a Andie o porque dela estar usando determinado azul.

Na contramão do consumo desenfreado, estamos percebendo movimentos que questionam esse modelo e buscam alternativas, como por exemplo, consumo compartilhado, aluguel e troca de produtos. Como você avalia este tipo de iniciativa? Você acredita que realmente estamos mudando nosso pensamento e comportamento de consumo ou isso ainda vai demorar muito para acontecer?

Acredito que este comportamento seja muito comum em lugares como favelas, cidades pequenas e vilas, pequenos grupos que criam redes de confiança para potencializar seu consumo, trocar, compartilhar etc… mas precisamos aprender com eles muitas coisas pois somos muito apegados às coisas que possuímos. Muitas vezes, damos mais valores as coisas do que as pessoas. Possuímos uma gama de objetos que não emprestamos, não doamos, sequer pensamos em compartilhar. O carro é uma delas. Não esqueço uma vez em SP quando um rapaz dono de um carro de alto luxo bateu em um outro num cruzamento causando a morte do motorista (era uma moça), ele se sentou na guia da calçada e ligou para um amigo chorando a perda do seu carro. Perto dele havia um corpo e ele nem se tocou. Ele é uma má pessoa? Possivelmente não. Mas somos levados a crer que o carro importado classe A é expressão de sucesso, é a prova cabal que chegamos ao sucesso e realização pessoal.  Acredito que precisamos passar por muitas etapas até chegar a uma popularização destas iniciativas bem-intencionadas, ainda há filas nas portas de lojas fast-fashion que exploram mão de obra sobretudo a infantil nos países mais pobres em busca de melhores preços, certo?!

Você acredita que o papel do consumidor é importante para contribuir para essas mudanças? Consumo também pode ser um ato político?

O consumo é um ato político sem sombra de dúvida. Podemos boicotar, podemos não querer dado produto em nossas vidas porque não compartilhamos o mesmos regimes de valor. Cada vez mais se procura este engajamento, mas é preciso maior ênfase na educação para o consumo, algo que normalmente não se faz. Aprendemos muito a poupar, isso é falado a todo tempo nos programas de TV, mas dificilmente nos ensinam a comprar melhor, a consumir melhor. Este é um desafio para o século XXI.

Em linhas gerais, quais as principais tendências de mudanças na forma de consumir no futuro próximo?  

A fazer por conta própria o que poderia ser comprado pronto, estamos numa era de resgate da artesania que cada vez cresce mais. Precisamos também potencializar nosso tempo e resgatar valores como sociabilidade, e a internet será um fato decisivo. Estamos buscando alma e essência nas formas de consumo, esta é a principal tendência seja ela em que setor for.

Conheça mais sobre o trabalho da Hilaine Yaccoub no site www.hilaineyaccoub.com.br e instagram:@hilaine