Tecnologia, Inovação e Moda

 

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Unsplash by Daria Nepriakhina

 

A tecnologia está revolucionando a maneira como usamos e nos relacionamos com a roupa. Tecidos inteligentes, werables (tecnologias vestíveis) e impressão 3D são algumas das inovações já possíveis no universo da moda.

Mas muito além de focar apenas na super tecnologia, muitos negócios estão  buscando unir inovação, moda e sustentabilidade para encontrar soluções para as questões ambientais enfrentadas pela indústria atualmente.

Já falamos no Blog sobre algumas matérias-primas inovadoras que estão mudando o cenário têxtil e da moda.

E para aprendermos mais sobre inovação e a indústria têxtil, o SDF conversou com a Liliana Rubio, engenheira química, Mestre em Gestão e Execução de Projetos de Inovação e fundadora de PMO Polymer Business Intelligence, escritório de projetos de inovação e do Ecossistema BioSmartTex para o desenvolvimento de projetos desde a criação até o produto final na Moda, que nos conta mais sobre tecidos inteligentes, biomimética e outros conceitos que estão moldando o futuro da moda e outros setores. 

1.   Poderia começar contando um pouco sobre você e seu trabalho?

Sou Innovation Builder, fundadora do PMO Polymer Business Intelligence um Bureau de projetos de inovação sustentável e Economia Circular, também fundadora do Ecossistema BioSmartTex para o desenvolvimento de projetos desde a criação até o produto final na Moda, Saúde & Bem-Estar e Arquitetura.

Sou Engenheira Química de formação e Mestre em Gestão e Execução de Projetos de Inovação e MBA em Gestão de Negócios. Tenho 18 anos de experiência trabalhando com polímeros e desenvolvimento de novos negócios de inovação e especialista em tecidos funcionais e interativos.  Também sou palestrante e colunista internacional em diversas Universidades e principais Congressos na América Latina, EUA e Ásia.

Fui ganhadora do prêmio de inovação Clariant Extra Award sobre pigmentos e aditivos naturais para bi polímeros; recebi menção de honra por negócios inovadores no concurso internacional “Plastic Smog Emissions Closed Loopon” (bio composites from waste micro plastic particles (beads and fibers) e fui patrocinadora e finalista nos concursos “Acelera Brasil” e “SUSTEX na Tunísia” por projetos relativos a Moda sustentável e Inteligente “Smart-Textile”.

2.   Qual a missão dos seus projetos – PMO Polymer Business Intelligence e o Ecossistema Bio Smarttex?

O ecossistema BioSmarttex é um Movimento SMART (referencial contemporâneo orientado a incentivar e desenvolver iniciativas e projetos de alto valor com visão de futuro e qualidade de vida no mundo atual) orientado para a criação e execução ponta a ponta de iniciativas de inovação sustentável e economia circular através de tecidos inteligentes e inteligência wearable (tecnologias vestíveis),  visando soluções nas questões fundamentais do homem contemporâneo e das cidades inteligentes nas áreas de bem-estar, saúde e urbanismo.

O ecossistema BioSmarttex integra uma equipe multidisciplinar das áreas de tecnologia, comunicação, ciências sociais e negócios e desenvolveu três projetos cápsulas de inovação e sustentabilidade chamada de “A Pele do Futuro”.

1. Bem Estar & Saude: A DOR ,  A pele do Futuro

2. Urbanismo & Arquitetura: UTILITAS WALL,  A pele do futuro

3. Fashion, Sports, Entretenimento: IONS, A pele do futuro

3.   Para você como a tecnologia e a inovação colaboram para a construção de uma moda sustentável?

Na Moda sustentável as coleções têm de estar à medida do mundo contemporâneo. Consideramos integrar o desenho inovador e sustentável com tecidos que brilhantemente incorporam novas estruturas de fios, a nanotecnologia, a microencapsulação (é uma tecnologia que permite o revestimento fino de componentes ativos com décimas de mícron até 5000 mícrons numa matriz, estes componentes ativos vão migrando controladamente e gerando algum tipo de efeito tais como os efeitos fitoterapêuticos) e a microelectrónica (é um ramo da eletrônica, voltado à integração de circuitos eletrônicos, promovendo uma miniaturização dos componentes em escala microscópica).

É assim como identificamos grandes origens de visão tecnológica, inovadora e sustentável, por exemplo, no mundo esportivo, nos Jogos Olímpicos da Antiguidade  realizados em Olímpia, na Grécia, do século VIII A.C. ao século V D.C., os atletas competiam nus para ter um maior controle do corpo e atingir seu melhor desempenho, era a pele aquele sofisticado órgão que o permitia, e é a pele que inspirou a origem das fibras inteligentes e interativas e tecidos funcionais embasados no princípio de “O TECIDO NOSSA SEGUNDA PELE” o qual é vigente até nossos dias.

Mas foi no século XIX, onde o  Barão Pierre de Coubertin fundador do Comitê Olímpico Internacional (COI) em 1894 com seu lema “CITIUS – ALTIUS-FORTIUS”, mas rápido, alto e forte, que se consegue consolidar o profundo impacto que a evolução dos tecidos tem tido no desenho e nos avanços tecnológicos fortemente voltados a atingir esse melhor desempenho de nossas funções corporais, físicas, mecânicas e químicas para o desenvolvimento de roupas mais sofisticadas.

A moda sustentável tem nome próprio “eficiência” e alta qualidade dentro de um marco de Economia Circular onde “menos é mais”.

4.   Qual o atual cenário sobre o tema – moda e tecnologia – no Brasil e na América Latina e quais são os principais desafios?

No dinâmico cenário atual, Inteligência e Interatividade são os valores de relevante influência que cimenta o futuro do mundo têxtil e moda, um dos mercados mais promissores no desenvolvimento científico atual, no Brasil, na América Latina e no Mundo.

Como nunca antes, o chamado “e- Têxtil” (termo internacional em inglês relativo a “Electronic textiles” que estão orientados a sistemas integrados dos tecidos com componentes eletrônicos como microcontroladores, sensores) inspira o umbral de uma revolução de materiais e tecnologias sem precedentes que modificará profundamente a forma como abordamos os desafios e megatendências da indústria têxtil e moda direcionando a um mercado inclusivo e interativo onde a funcionalidade e a sustentabilidade prevalecem.

O “e- Têxtil” é o ponto de interseção que incorpora o multidisciplinar e multi setorial em  diversas indústrias tais como a têxtil, cosmético, farmacêutica, saúde e plástico e integra brilhantemente a nanotecnologia com a microeletrônica.  É uma indústria que estatisticamente representa $3 bilhões de dólares com um crescimento anual estimado em 20%, e com um potencial inestimável de evolução nos próximos anos em importantes mercados como moda, arquitetura, saúde e esporte.

Este cenário inovador há fornecido um estoque inesgotável de ideias e soluções engenhosas durante décadas; “e- Têxtil” roupas inteligentes e interativas tem esse foco principal que é mimetizar e potencializar as funções naturais da pele humana, um campo revolucionário de inovação onde fatores como peso, forma, gerenciamento térmico, gerenciamento de umidade, proteção e saúde, e até estado psicológico são altamente relevantes e motivos de estudo.

O futuro das diversas aplicações da indústria “e- Têxtil” centra seus fundamentos nos pilares de conectividade e convergência, incorporando a megatendência Saúde & Bem-Estar, os princípios da Biomimética, os modelos de negócio relativos a customização e personificação,  o desenho eco têxtil, eco eficiente e sustentável. Tudo isso dentro de um cenário multissetorial e interconectado onde o mercado e consumo estão orientados a: Menor Tempo, Menor Esforço, Menor Movimento, o qual reflete em negócios lucrativos e sustentáveis.

O desafio criação, gestão e execução eficiente de ecossistemas voltados ao “e- Têxtil”. Nossa Jornada no Bureau PMO Business Intelligence e nosso Ecossitema BIOSMARTTEX.

5.   Poderia contar um pouco sobre o conceito da Biomimética e a importância de se inspirar na natureza para construção de negócios e produtos sustentáveis?

Depois de 100 anos imersos na revolução industrial se percebe que o mundo construído não está isolado do mundo natural, o mundo está intimamente conectado ao mundo natural.

Novamente, 3.8 bilhões de anos de evolução dos processos naturais para a preservação das espécies e seu hábitat nos ensinam através da biomimética como administrar os negócios sustentavelmente.

A biomimética vai mais longe de produtos ou processos científicos e tecnológicos; ela é âncora na gestão do conhecimento e execução eficiente da inovação sustentável e do empreendedorismo criativo reconstrutivista e não estruturalista. É uma gestão com visão de futuro.

Grandes profissionais de todas as áreas coincidem que a biomimética ultrapassará a biologia molecular, consolidando-se “como a mais desafiadora e importante ciência biológica do século XXI”, alinhada com a preocupação energética e ambiental que garanta nossa sobrevivência, permeando numa cultura com foco na inteligência coletiva das redes de comunicação que incorporaram novas práticas de desenho de um eco desempenho, um Eco Business onde Smart is the new green com caráter multidimensional.

Fina observação de milhares de reações químicas, físicas e mecanismos das espécies naturais que estão interconectadas nas redes através de ciclos que nos conduzem a compreender de que a realidade é complexa e não fragmentada, que tudo é interdependente.

Um reconhecimento dos sistemas vivos, como fontes da “Inovação inspirada na vida”, e exemplo para a incorporação de modelos de criação do DNA, auto regeneração e auto regulação.  Várias empresas com foco no “para o consumidor e o planeta” estão validando o conceito da biomimética e métodos de produção de valor produtos e modelos de negócio sustentavelmente corretos.

A biomimética, o caminho de volta para a exploração das imensas fortalezas naturais, onde o êxito está em Aperfeiçoar, “Observar” e Executar. 

A biomimética é o pilar fundamental para as companhias e grupos de nosso programa de mentoring “Innovation Hunter Lab” no Bureau PMO Business Intelligence.

6.   Em um de seus textos disponíveis no site DressStyle você comenta que “Como nunca antes, moda e arquitetura são o ponto de intersecção entre a inteligência e interatividade; valores relevantes no mundo dinâmico da “Internet das Coisas” com grande potencial para o futuro”, poderia falar mais sobre o papel da moda nesse cenário inovador?

Atualmente no Bureau desenvolvemos o projeto UTILITAS WALL que integra moda e arquitetura dentro do marco do Ecossistema e Economia Circular que tem como objetivo uma proposta de design e alta tecnologia de tecidos funcionais, wearables e recuperáveis.

A funcionalidade, a semiótica, as artes, o desenho são novos referenciais para entendermos a dinâmica da vida e para buscarmos soluções de essência na nova ciência da complexidade onde diversas disciplinas como moda, arquitetura, tecnologia convergem em um sistema interconectado com implicações enormes na gestão da inovação e desenho estrutural.

7.   Qual o papel do consumidor nesse cenário de mudanças?

Nesse cenário super urbanizado e superconectado, por exemplo, no Brasil de acordo com o Instituto de Geografia e Estatística – IBGE 84% da população se concentra em áreas urbanas.  Os estilos de vida, preferências e demandas comportamentais e mercadológicas tornam evidente a urgência em enfrentar as questões relativas a cidades sustentáveis, e ações de estímulo a novos materiais e desenvolvimento tecnológico na indústria, gerando a chamada “Inovação de Valor” que envolve novas estratégias como a Estratégia de Oceano Azul, novas abordagens de marketing como é Modelo SIVA (solução, informação, valor, acesso), novos modelos de negócio como é Ecossistema e Economia Circular.

Nesse cenário TUDO tem de estar baseado com foco “Do consumidor” e não nas velhas práticas de desenvolver produtos e serviços com foco “No consumidor”.  Nesse sentido de interatividade e convergência tem uma megatendência que sinaliza a personificação como um dos pilares onde o consumidor passa de ser um usuário a ser aliado e ator da mudança. A Era das Metrópolis!

8.   O que espera para o futuro da moda?

A moda dentro da Era das Metrópolis e as mega tendências se prevê que seja prática, conveniente, convergente e multifuncional!

 Liliana Rubio explica um pouco mais sobre o assunto nos vídeos abaixo, confira.

Smart Moda, Saude&BemEstar Smart arquitetura  

Para saber mais sobre o trabalho da Liliana Rubio confira seus textos na revista eletrônica Dress Style e acompanhe seus projetos no Facebook.

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Documentário retrata o cenário da moda sustentável e artesanato na América Latina, confira a entrevista com o criador do Moda.Doc

Moda.Doc América Latina nos convida a conhecer o cenário da moda sustentável e artesanal no Brasil e outros países latinos, além de promover soluções reais e já existentes para os problemas da indústria, com base nos quatro pilares da sustentabilidade: social, cultural, ambiental e econômico.

O filme entrevistou nomes importantes e atuantes no setor no Brasil e na América Latina, como Flávia Aranha, Heloísa Crocco e Fernanda Simon, entre outros profissionais.

Uma iniciativa inspiradora que também busca valorizar o artesanato local e possibilitar a reflexão para tornar os consumidores de moda conscientes e responsáveis por suas escolhas.

O SDF conversou com o criador, roteirista e diretor do documentário, Rodrigo Müller.

Rodrigo atua como modelo no mercado nacional e internacional, com formação em Direito Ambiental e Sociologia o faz observar a moda com olhar crítico e, a partir desta observação, tornou-se um defensor da moda ética, responsável e consciente.

 Confira a entrevista abaixo.

1. Poderia contar um pouco sobre você e como surgiu a ideia do documentário?

A ideia do documentário surgiu enquanto em morava em Londres. Lá eu conheci o movimento da moda ética e então resolvi fazer minha parte. Em 2011, voltei para o Brasil e um ano depois, em 2012, comecei minhas pesquisas. No início eu tinha em mente criar um website para conectar marcas éticas da América Latina com jornalistas do mundo todo. Logo depois achei que o trabalho seria mais eficiente se eu registrasse tudo em imagens para mostrar para o mundo. Eu morei no Uruguai, no Chile e estive em outros países da América Latina fazendo as pesquisas. Conversei com muitos profissionais do setor (estilistas, artesãos, jornalistas, professores, ambientalistas) e quando percebi tinha o conteúdo para um filme longa metragem.

2. Qual o principal objetivo do Moda.Doc América Latina?

Este é um filme que tem como objetivo a reflexão sobre o papel da moda e de como o consumidor tem o poder de transformá-la, um filme que busca dar visibilidade às marcas de moda sustentáveis e o artesanato local. Este é o ponto de partida para a transformação da moda na América Latina, que pode e deve se tornar mais ética, limpa, inovadora, original e inteligente, sem deixar de ser lucrativa, pois possui uma enorme riqueza cultural, matéria-prima de qualidade (muitas vezes orgânica), estilistas com muito talento e mão de obra em abundância. O diferencial da moda na América Latina deve ser a sustentabilidade.

3. Quem são e como foram escolhidas as pessoas que participam do filme?

Só entrarão no filme iniciativas e marcas que forem cuidadosamente avaliadas e aprovadas pelo NOMDAL (Núcleo de Organizadores do MODA.DOC AMÉRICA LATINA em conjunto de professores universitários de moda e de profissionais que trabalham nas organizações de moda ética na America Latina). Este grupo foi formado ao longo de anos de pesquisa. É muito importante que apenas empresas idôneas façam parte do documentário.

Já a equipe técnica que fará parte da criação do longa metragem foi montada tendo em vista a ampla experiência de cada profissional em suas respectivas funções na área do cinema e a afinidade com o tema da sustentabilidade.

4. Com a realização do documentário o que pôde perceber sobre o atual cenário da moda na América Latina e como o tema moda sustentável e consumo consciente estão inseridos?

Existe um mundo novo prestes a ser desvendado, são inúmeras iniciativas incríveis acontecendo e ainda não temos conhecimento sobre elas. É perfeitamente possível existir uma indústria da moda que gere lucro e que não cause tanto prejuízo para as pessoas e ao meio ambiente, a marca norte americana Patagonia e muitas outras de menor porte aqui na América Latina nos servem como exemplo.

Usando matéria-prima orgânica, reutilizando ou reciclando materiais temos a oportunidade de reduzir o impacto no meio ambiente. Muitas marcas trabalham em sistema de cooperação com produtores de matéria-prima orgânica. Isto garante a qualidade dos produtos e ajuda a manter viva a cultura e tradição dos trabalhadores locais. O futuro da moda é sem dúvida o feito a mão, tecnologia e sustentabilidade.

5. Como a moda incentiva e valoriza as culturas locais e o trabalho artesanal de cada região?

Muitos estilistas tiveram que criar a sua própria cadeia produtiva na busca de desenvolverem empresas realmente éticas. E isto é muito significativo, algo novo está acontecendo. Até bem pouco tempo não era possível digitar no Google “fornecedores de matéria-prima orgânica para moda” e resultar diversos links para escolha, isto tudo está surgindo agora.

Muitos estilistas tiveram que criar a cadeia produtiva, ir literalmente em busca destes produtores. E este trabalho, mais próximo, traz benefícios para todos. Os produtos ganham em inovação, originalidade e qualidade. Já os produtores de matéria-prima são remunerados de forma justa e fazem parte do processo criativo. Isto gera autoestima para eles e faz com que estas comunidades mantenham suas culturas vivas.

6. Você acredita que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas na forma como produzir e consumir moda?

Absolutamente, assim como na indústria dos alimentos, na moda a sustentabilidade é cada vez mais relevante. Você já parou para pensar que o maior órgão do corpo humano é a pele? É importante ter cuidado com o que colocamos sobre ela, e este é apenas um dos problemas causados pela indústria da moda convencional.

Existe também todos os problemas socioambientais, o documentário “The True Cost” trata bem sobre estes problemas. Para evoluirmos neste sentido devemos observar três pontos: consumidor, empresa e mídia. A mudança deve acontecer nestes três pontos, mas é o consumidor que pode fazer este processo andar de forma mais rápida.

O consumidor deve sair da influência das mídias e começar a se dar o direito de questionar, pesquisar, escolher e pedir. É ele que, de certa forma, tem o verdadeiro poder. Ele tem o poder da “demanda” e o mercado busca responder à “demanda”. No entanto, este é um ciclo que se retroalimenta no momento em que é o mercado que fornece a informação sobre o consumo sem independência.

7. No site do Moda.Doc vocês comentam que “é urgente realizar um trabalho de educação e sensibilização para o público em geral e desenvolver a noção de consumo consciente” para você, quais são os principais desafios para realizar esse trabalho e como o filme colabora com isso?

Eu descobri sobre o modo de produção “Fast Fashion” quando eu morava em Londres, comecei a me questionar sobre os preços absurdamente baixos e foi aí que entendi como tudo funcionava. Fiquei muito descontente comigo, eu que sempre fui um apaixonado pela natureza e estudei Direito Ambiental por muitos anos, mas, felizmente, eu decidi fazer a minha parte.

O maior desafio até aqui foi sem dúvida começar o projeto sozinho quando quase ninguém queria ouvir falar sobre sustentabilidade na moda. Eu usei todas as minhas economias para viajar e fazer a pesquisa de campo. Toda a fase de pré-produção foi custeada por mim, ou seja, anos investindo todo o meu tempo e dinheiro neste filme.

Eu poderia simplesmente ter feito o que era mais fácil, não o que era correto. Mas que tipo de pessoa seria eu se, mesmo sabendo sobre tudo, não fizesse nada para ajudar na mudança? Este filme é uma resposta da América Latina para o mundo sobre sustentabilidade na moda, e muito mais!

O conteúdo do filme é riquíssimo, há momentos de tensão, mas também há muita sensibilidade e beleza. É realmente um respiro em um mundo tão turbulento como o dos dias de hoje.

Os entrevistados falam abertamente sobre a indústria da moda e sobre a América Latina, muitos deles são personagens conhecidos no cenário mundial, como Livia Firth e Carry Somers.

Portanto, o filme colabora para a evolução da moda e valorização do artesanato na América Latina porque é um retrato isento do que está acontecendo neste setor hoje em nosso continente e vislumbra como ele será no futuro. Informação é a chave para a transformação.

8. O que foi mais interessante descobrir ao fazer o documentário Moda.Doc?

Com certeza foi descobrir que estamos no lugar certo e na hora certa. Estamos vivendo um momento singular na história da humanidade. Temos tudo aqui, precisamos nos descobrir e nos organizar.

9. O que espera para o futuro da moda?

Eu espero que a moda volte a existir. Espero consciência e evolução.

10. Quando será a estreia e onde estará disponível?

O filme estreia em 2018 e estará disponível na internet para que todas as pessoas possam assistir, além de canais fechados é claro. Será feita também uma série para TV e será publicado um livro sobre a moda e o artesanato da América Latina.

Aguardamos ansiosamente a estreia dessa linda e inspiradora iniciativa. Por enquanto, podemos conferir o teaser do filme aqui.

E para acompanhar as novidades do Moda.Doc América Latina acesse o site e siga suas redes sociais, facebook e instagram.

Economia Circular e a Indústria da Moda

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Foto: Janko Ferlic | Unsplash

Se pensarmos na maneira como a natureza funciona notamos que não existe desperdício, tudo é aproveitado, é um processo cíclico e harmônico. Agora, se analisarmos como nós, humanos, temos atuado percebemos que nossa abordagem tem sido bem diferente.

Nosso modelo econômico atual é linear, dependemos de grandes quantidades de materiais e energia baratos e de fácil acesso que são processados e transformados em produtos, que logo serão descartados. Segundo o Fórum Econômico Mundial retiramos aproximadamente 65.000 milhões de toneladas de matérias primas ao ano, mas 80% desses materiais se tornam resíduos, o que representa uma perda irrecuperável de cerca de US$2,6 trilhões por ano. Um modelo que se baseia no desperdício e na superexploração de recursos naturais é um modelo insustentável, certo?

Mas a boa notícia é que esse ciclo está sendo quebrado e novos paradigmas estão surgindo, como a Economia Circular. Esse modelo propõe repensar e redesenhar a forma como produzimos e como consumimos, onde tudo possa ser recuperado e reutilizado, como acontece nos ciclos biológicos.

E para entendermos melhor sobre esse tema e sua relação com a indústria da moda, o SDF conversou com a Alice Beyer Schuch e a Tania Gengo fundadoras da ES-Fashion, empresa pioneira na disseminação do conceito de Moda Circular no Brasil. Confira a entrevista abaixo.

1.Primeiramente poderiam contar um pouco sobre vocês e o trabalho da ES Fashion?

Nós, Alice e Tania, nos conhecemos na China e sabemos do lado obscuro que a moda pode seguir… E assim, juntando nossas especialidades – a Alice é mestre em moda sustentável e a Tania é formada em negócios de moda – a ES-fashion surgiu do desejo de usar a moda como uma ferramenta propulsora para o desenvolvimento, não apenas econômico, mas também social e ambiental, disseminando novas perspectivas em que a moda atua, sim, de forma responsável. Para isso, trazemos diversos conceitos vistos na Europa (onde a Alice mora) de forma a ajustar à realidade brasileira (onde a Tania mora). Entre os serviços da ES, estão a consultoria a empresas rumo a circularidade, a elaboração de pesquisas, treinamentos e cursos, e ainda a internacionalização, apresentando as marcas brasileiras sustentáveis ao mercado europeu.

2. O que é economia circular e como ela é aplicada na moda?

A Economia Circular é um sistema restaurativo e regenerativo por design. Isso quer dizer que quando desenvolvemos produtos, lá em sua fase embrionária, já pensamos em desenvolvê-los de forma a não prejudicar (ou até beneficiar) ao final de seu ciclo inicial o nosso capital social e natural – pessoas, água, energia, recursos. Além disso, se sugerem novos modelos de negócios para manter estes itens em uso por mais tempo para que o valor investido em sua produção não se perca após essa primeira fase. 

 Na moda, isso se aplica diretamente na melhor seleção de têxteis, escolhendo alternativas de menor impacto por exemplo, como as fibras orgânicas ou ainda recicladas. Podemos também incluir estratégias de design que favoreçam o uso contínuo ou por mais tempo de peças, suas partes e materiais utilizados. Ou ainda, aplicamos um modelo de negócio que promova trocas, compartilhamento e similares. A ideia é buscar alternativas que reduzam essa pressão sobre pessoas e total dependência em nossos recursos virgens.

3. Porque é importante pensarmos nesse modelo? E quais são os principais desafios?

A moda convencional é uma indústria que exige muito e impacta irresponsavelmente pessoas e a natureza. Em um modelo circular, onde uma visão holística é fundamental, percebemos nossas interferências e buscamos abordá-las de forma a eliminar estes impactos negativos.

Entre os desafios de se aplicar um conceito tão amplo, a mudança de mindset talvez seja o mais desafiador. Por parte empresarial, é necessário pensar de forma inovadora e disruptiva. Nosso modelo pós revolução industrial não irá trazer as respostas e soluções à essas novas questões. Além disso, é relevante se trabalhar em parcerias, dividindo informações, buscando apoio mesmo entre os assim-chamados “concorrentes” para que se saliente o poder de mudança de um grupo. Por parte do consumidor, como figura importantíssima para fechar os ciclos, por exemplo, a mudança de mentalidade e hábitos também se faz necessária. Deixaremos de ser consumidores e nos tornaremos usuários de moda… E isso envolve repensar e reavaliar nossos velhos padrões de consumo, de necessidade de ter, de compra por impulso, de ver o passeio no shopping como o momento de relax da semana…

4. Qual o papel que o design, a tecnologia, as empresas e os consumidores desempenham na realização dessa prática na moda?

O design, como o próprio conceito de EC diz, é o ponto inicial deste processo. Se produzimos algo sem um pensamento cíclico, teremos, muito provavelmente, dificuldades em reaproveitar este item dentro deste novo sistema, e o mesmo acabará sendo descartado em algum momento. A tecnologia é o que permite a aplicação de novas alternativas, seja no desenvolvimento de novos materiais ou fibras como na realização de mundos digitais que conectam mais facilmente os consumidores ou oferecem produtos de forma virtual. As empresas são o meio pelo qual inovação chegará ao usuário, mas nessa nova perspectiva, todos nós podemos nos tornar agentes de mudança e empreendedores. Grandes exemplos de moda circular estão sendo sugeridos por start-ups que já nasceram com a sustentabilidade em seu DNA. Por fim, os consumidores – que preferimos chamar usuários de moda – tem o poder de decisão quando de sua escolha por um ou outro produto, um ou outro sistema. Mesmo assim, muitos ainda não estão conscientes de seu papel, e nunca estarão. Para esses, o sistema deverá ser desenvolvido em paralelo e eles acabarão por fazer parte de forma automática, inconsciente, “indolor” (sem concessões ou sacrifícios).

5. Como as marcas e empresas do setor da moda estão adotando a economia circular em seus negócios? Poderiam nos dar alguns exemplos concretos dessa prática?

Existem muitas frentes que podem ser abordadas. Temos visto muitos materiais e processos alternativos surgindo, como couros de cogumelo ou chá, fibras de alga ou de descarte de outros setores como as cascas da laranja, ou ainda tingimento com bactérias, sem água e sem químicos tóxicos, curtimento com folha de oliveira. Existem também empresas apostando no reuso de descarte têxtil pré ou pós consumidor para a produção de novos itens de moda ou investindo em novos negócios de compartilhamento, de reuso e manutenção de roupas que já estão circulando por aí. Em todos estes aspectos, é relevante para as empresas a provisão de informação clara e objetiva sobre o que tem sido feito, como e por quem, mostrando o caminho trilhado e ainda os próximos passos a serem adotados.

6. Como vocês analisam o cenário na Europa sobre esse tema e no Brasil? E o que podemos aprender com os países que já estão mais atuantes nesse setor?

A Europa já vem oferecendo moda com baixíssimo impacto há mais de 40 anos e tem usuários muito mais predispostos a participarem dessas mudanças. Além disso, o apoio a pesquisa e desenvolvimento científico, por exemplo, ou a novos programas de impacto positivo já são o status-quo.

Quando comparamos com o Brasil, ainda estamos atrelados culturalmente à necessidade de ter mais pelo menor preço (mesmo que a qualidade não compense) e preferencialmente a mudar sempre – o carro do ano, o telefone de lançamento, a roupa da vitrine. A grande diferença é que não existem estruturas no Brasil que recolham esse material de forma a possibilitar o seu reaproveitamento. E tudo acaba indo para o lixão – com exceção de nosso belo exemplo de reciclagem de latas de alumínio! O que o Brasil deve fazer, é estar atento à estas mudanças e aplicar de forma adaptada a sua realidade sem esperar pelo apoio de iniciativas públicas, trabalhando de forma conjunta com diferentes stakeholders. A união faz a força, não é mesmo?

7. Para vocês qual o futuro da moda?

A moda no futuro se tornará algo misto, onde a tecnologia e desenvolvimento existirão a favor da natureza e das pessoas e gerará novos setores, novos tipos de trabalho e consequentemente novas formas de movimentação financeira. A democratização de uma moda sustentável, sem tóxicos, impactos negativos, de alta circulação e benéfica socialmente será o padrão oferecido. Grandes alterações poderão também ser vistas no sistema educacional, onde as mudanças deverão ser aplicadas de forma dinâmica e efetiva, instigando a criatividade investigativa mais que o seguimento de padrões e tendências, a cor da estação!

8. Para quem quiser saber mais sobre economia circular poderiam dar sugestões de livros e/ou sites?

Fundação Ellen MacArthur tem feito um trabalho exemplar em muitos setores. Suas inúmeras publicações nos dão uma base claríssima das possibilidades deste novo sistema, inclusive com estudos sendo iniciados na área de moda. No Brasil, temos a Exchange 4 Change fazendo um trabalho voltado exclusivamente para nosso país, que acaba de lançar o primeiro livro em português sobre o tema. Leitura fundamental também são os livros Cradle to Cradle, The Upcycle e ainda Waste to Wealth que, apesar de não serem específicos para a moda, nos abrem o olhar para uma visão holística e sistêmica de nossas ações. O site da ES ainda tem uma biblioteca onde atualiza regularmente publicações do Brasil ou traduzidas sobre o assunto.

Para saber mais sobre ES-Fashion e acompanhar seus projetos acesse o site: http://es-fashion.net/  e acompanhe seu Blog e Instagram.

 

Como gerar impactos sociais e promover ações positivas na moda, conheça o Instituto Ecotece

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[Grupo de Mães Oca – um dos 16 grupos apoiados pelo Ecotece]

A relação entre moda e sustentabilidade é um tema recente no país, mas que está gradualmente ganhando importância e visibilidade já que estamos mais informados e conscientes sobre os inúmeros problemas encontrados na indústria da moda atualmente.

Sabemos que precisamos mudar nossa maneira de atuar para construir uma moda que respeita às pessoas e o planeta e, para nos auxiliar nessa transformação surge o Instituto Ecotece que há mais de 10 anos atua com a temática da moda sustentável no país.

O Ecotece acredita que “pode-se abrir caminhos de mudança e tecer um mundo melhor humanizando os processos produtivos e promovendo mais inclusão, satisfação e conexão entre os envolvidos da cadeia da moda: criadores, produtores e consumidores”.

O SDF conversou com a Lía Spínola, diretora do Instituto, para nos contar sobre o trabalho que desenvolvem e como geram impactos sociais e promovem juntamente às marcas, designers e grupos produtivos ações positivas na moda e na vida de cada um.

1.  Poderia nos contar como surgiu o Ecotece e qual a missão do Instituto?

O Instituto Ecotece é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) fundada em 2005, pela jornalista Ana Candida Zanesco que visa gerar soluções criativas na moda por meio da educação e do desenvolvimento de produtos sustentáveis.

Na época a Ana Zanesco trabalhava como assessora de imprensa de um desfile voltado para estudantes, que já não existe mais, o Eco Fashion Brasil. Devido a esse trabalho a Ana foi buscar informações sobre moda e sustentabilidade e percebeu que não existiam ou que eram de difícil acesso, no Brasil não tinha nada sobre o assunto e lá fora ainda era um tema incipiente. Então a Ecotece nasce como um portal que reunia informações, cases, estudos, pessoas, um pouco de tudo relacionando o que significava sustentabilidade e moda, um portal um pouco mais acadêmico.

A missão do Ecotece é construir uma cadeia de moda mais humana e sustentável, que promova a produção e o consumo responsáveis, a proteção do meio ambiente e inclusão social.

2. Como vocês atuam e quais serviços oferecem?

Nesses 11 anos muita coisa aconteceu no Ecotece, deixamos de ser um portal de informação e atualmente trabalhamos desenvolvendo projetos em três frentes de atuação: educação, desenvolvimento de produtos e fomento social.

Na área de educação, no momento, trabalhamos com 3 projetos principais:

·         Comunidade Ecofashion: projeto que usa a moda como um meio facilitador para trabalharmos assuntos complexos junto às crianças das periferias de Mauá e Santo André. Através de oficinas de desenvolvimento de produtos com materiais recicláveis, levantamos esses assuntos, confeccionamos roupas que depois são desfiladas e, por fim acontece uma exposição. São 10 escolas, 300 crianças impactadas, e agora em 2017 vamos ter a exposição do projeto do ano passado e começaremos um novo Comunidade Ecofashion que dobrará de tamanho, trabalharemos com 600 crianças.

·         Renda Renascença, estudamos e promovemos cursos no Instituto já há muitos anos ligados a essa técnica. A proposta é que possamos compreender melhor a técnica da renda e também “popularizar” no sentido de que mais pessoas tenha acesso a esse aprendizado, pois hoje em dia está muito restrito, são mulheres no nordestes já senhoras, enfim tem pouca gente produzindo.

·         Também organizamos palestras e algumas atuações junto às empresas.

A segunda área do Ecotece é o desenvolvimento de produtos e a terceira é o fomento social, essas duas áreas estão superconectadas.

O principal projeto da frente desenvolvimento de produtos é o Ecotece +: a proposta é fazer parcerias com marcas de moda que estejam alinhadas aos nossos valores, como uma consultoria, trabalhamos com essas marcas no primeiro momento, auxiliando nos produtos que irão produzir. Nossos expertises são: a) consultoria de materiais – parcerias e mapeamento com todos fornecedores de matérias-primas brasileiras;

b) desenvolvimento de produtos – producão de modelagem, ficha técnica e graduação;

c) depois que esse produto está pensado e fechado, o Ecotece tem um serviço de gestão produtiva, que está conectado com a nossa terceira frente de atuação, o fomento social.

A gestão produtiva é sempre realizada com a nossa rede de grupos, hoje são 16 grupos apoiados.  São sempre grupos em situação de alguma vulnerabilidade e grupos ligados ao Comércio Justo e a Economia Solidária, sendo uma das principais características a alto gestão.

Hoje, temos dois perfis principais na nossa rede: grupos de mulheres dentro de comunidades carentes e grupos da saúde mental. Cada grupo vai ter uma especialidade distinta, por exemplo, grupo de costura, no qual é dividido por: grupo de malharia, tecido plano e sempre separado por níveis. Tem grupos que já estão em uma fase mais avançada, que costuram muito bem e que conseguem produzir peças mais complexas, e temos também grupos de costura de base que fazem sacolas, por exemplo, que entendemos que é a primeira etapa.

Também temos diversos grupos artesanais, com técnicas de tricô, crochê, renda renascença, tear e técnicas de estampa.

A gente atua com os grupos de duas maneiras:

·         Através de incubações para grupos, com o programa Lab Moda Mais, apoiamos grupos em três frentes principais: a) comercial e negócios – basicamente seria o grupo entender bem o que ele tem de expertise e que nível que está e como ele se conecta com o mercado (perfil de cliente e como chegar nele). Nesse programa temos um módulo com várias etapas que são trabalhadas dentro das incubações ligadas a esse tema; b) a outra frente é ligada a técnica – desenvolvimento para que eles estejam cada vez melhores naquilo que eles fazem; c) e o terceiro assunto é a gestão produtiva – trabalhamos questões como, calendário, qualidade, organização da produção.

Todos os grupos que são incubados continuam na nossa rede, vamos captando demandas específicas para esses grupos, acompanhando a produção e auxiliando o grupo em tudo que for necessário principalmente nos três aspectos mencionados acima.

3. Qual o perfil das marcas que trabalham com o Instituto?

São sempre marcas que a gente acredita que esteja aliada com o que acreditamos e com os nossos valores. Não necessariamente sejam marcas sustentáveis, hoje temos três principais tipos de marcas que chegam até nós:

– Marcas que já tem um DNA sustentável dentro delas há muito tempo, como é o caso da marca Flavia Aranha, parceira Ecotece já há muitos anos.

– Marcas jovens e, é o que tem acontecido bastante nos últimos anos, várias marcas que já nascem com a questão da sustentabilidade, então temos um braço que vai apoiar a implementação dessas marcas novas.  

– Marcas que não são sustentáveis, mas estão começando a repensar seus processos e pouco a pouco estão mudando as suas políticas e a sua cadeia produtiva, por exemplo, o projeto que fizemos com a marca Cavalera.

4. O Instituto Ecotece trabalha há mais de 10 anos com moda sustentável, como vocês analisam a evolução do tema nos últimos anos? Acreditam que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas?

Eu acredito que estamos evoluindo muito, quando o Ecotece nasceu não existia nenhuma relação entre sustentabilidade e moda, durante vários anos, a gente se aproximou de empresas e indústrias de outros setores, pois o diálogo com a moda era inexistente e muito difícil no começo, não havia abertura.

Então, acredito que as coisas estão mudando muito, acho que primeiro vieram novas marcas, de pessoas que estavam saindo da faculdade ou tinham estudado fora do Brasil, pessoas engajadas querendo lançar marcas e projetos já com esse conceito.

E agora eu vejo também uma mudança nas marcas já estabelecidas, é bastante recente, mas está ganhando poder. Estamos vendo grandes empresas, varejistas, como C&A, com institutos que estão mudando sua missão e focando na questão de sustentabilidade.

Muita coisa tem acontecido e muita coisa ainda vai acontecer, mas ainda estamos engatinhando. Notemos pesquisas aqui no Ecotece que dizem que a moda está 20 anos atrás, em termos de consciência do consumidor, da indústria de alimentos, particularmente acredito que estamos ainda mais longe.

5. Para vocês, qual é o principal problema da indústria da moda atualmente e como o Ecotece colabora para a mudança?

Acho que todos, a indústria da moda é muito complexa, ela é muito grande e há problemas em todas as etapas da cadeia, desde a plantação da matéria-prima até chegar na utilização das roupas pelos consumidores.

Eu acredito que não existe nenhuma solução pré-pronta e que nenhum projeto nem nenhuma empresa vai conseguir lidar com esse assunto na sua totalidade. Então, eu acredito que a mudança está aí entre esses diversos atores, projetos e empresas que estão engajados em atuar em algum ponto dessa problemática.

No caso do Ecotece, já fizemos muitas coisas e atuamos em diversos assuntos e, para os próximos anos, temos como diretriz a atuação na humanização dos processos produtivos, promovendo mais inclusão, satisfação e conexão entre os envolvidos da cadeia de moda, criadores, produtores e consumidores. Então, estamos muito focados nessa conexão das marcas de moda junto aos grupos que produzem, tanto no fortalecimento dessa relação quanto, também trazendo pessoas que de alguma maneira trabalham com moda mas que não conseguem atuar de uma maneira ética ou fortalecida junto a esse mercado.

6. Hoje, fala-se muito sobre comércio justo/fairtrade, porque devemos dar atenção a esse tema? E como saber se uma marca/empresa realmente pratica o Comércio Justo?

Acredito que o Comércio Justo é bastante importante em relação à descentralização do dinheiro, é conseguir distribuir melhor os poderes e as parcerias, levando trabalhos, por exemplo, para as comunidades ou para grupos e empresas menores, mais distantes que estão dentro de comunidades e fomentando mais o empreendedorismo.

O Comércio Justo possui diversas diretrizes de valorização bastante importantes que tem um bom diálogo com a moda.

Agora para saber se uma marca realmente pratica o comércio justo é complicado, certo?! Porque não temos como saber exatamente o que está acontecendo dentro de uma marca, mas quanto mais transparente, contar histórias e demonstrar um pouco do que estão fazendo mais podemos conhecer sobre a marca e seus processos.

No olhar do consumidor é sempre mais complexo, acredito que tem que reparar nas parcerias, por exemplo, quando uma marca se associa ao Ecotece, por exemplo, nós podemos garantir o que está sendo feito dentro do Instituto, tudo está alinhado às políticas do Comércio Justo, não nos associamos com qualquer um.

Mas, claro não temos como garantir que todas as coisas são corretas dentro da marca, porque isso é inviável, porque nem grandes auditores tem como auditar uma marca hoje. Infelizmente ou felizmente vamos ainda pelo bom senso e confiança, porém, infelizmente, não é possível confiar em tudo que as marcas fazem.

7. Para vocês qual a importância da valorização da mão de obra e desenvolvimento de comunidades na indústria da moda?

A importância é que basicamente quando falamos em moda sustentável um dos principais pilares é a valorização das pessoas, e parte dessa questão, não sua totalidade, está ligada também ao dinheiro, a promover boas relações de trabalho, abertura para o diálogo e boas condições de trabalho. Acho que essa é a grande questão.

Em termo de desenvolvimento das comunidades é o que já comentei sobre a descentralização dos recursos.

8. Qual o papel dos consumidores para ajudar a construir uma moda mais justa e sustentável?

Eu acho que temos muito poder como consumidores, às vezes eu penso que temos mais poder como consumidores do que como eleitores, por exemplo. Isso no sentido de que nós estamos fazendo as escolhas com muito mais proximidade. No momento em que você decide ir a uma loja tal, comprar a roupa tal que é feita por tal material, por mais que ainda temos dificuldades de compreender o que está por trás dessa peça, por trás dessa empresa, acho que ainda conseguimos ter mais informações do que, por exemplo, do candidato que vamos votar. A gente entre na loja, pega peça, pode ver o que tem dentro, tem uma etiqueta, falar com os vendedores, com o dono,cada vez mais a mídia e os sites das empresas contam muita coisa.

Para saber mais sobre o Instituto Ecotece e acompanhar seus projetos acesse o site: http://ecotece.org.br e acompanhe suas redes sociais: Instagram e Facebook  

Faça parte da revolução da moda! Conheça o movimento Fashion Revolution Brasil

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campanha fashion revolution #quemfezminhasroupas #whomademyclothes

Uma das maiores tragédias industriais da história, o desabamento do edifício Rana Plaza que abrigava um complexo de fábricas têxteis em Bangladesh, marcou para sempre a indústria da moda. No dia 24 de abril de 2013, mais de mil trabalhadores morreram após o edifício ruir, tornando-se símbolo do descaso dos direitos de trabalhadores presente no setor.

Logo após essa fatalidade, o movimento global Fashion Revolution nasceu para convidar as pessoas a usarem o poder da moda para mudar a história dos trabalhadores ao redor do mundo, tornando-a uma força para o bem.

“We believe in an industry that values people, the environment, creativity and profit in equal measure. Our mission is to bring everyone together to make that happen” Fashion Revolution.

 O SDF conversou com a Eloisa Artuso, Coordenadora Educacional do Fashion Revolution Brasil, para nos contar um pouco mais sobre a história do movimento e sua atuação no país.

 Vamos fazer parte dessa revolução!

 Conte para a gente como o movimento surgiu e desde quando está aqui no Brasil?

O Fashion Revolution é um movimento global, presente em mais de 90 países, criado pela Carry Somers e Orsola de Castro, que acompanhadas de um grupo de estilistas, acadêmicos, imprensa e ativistas, decidiram dar um basta nas condições degradantes de trabalho escondidas na cadeia produtiva da moda.

O desabamento do Rana Plaza, em Bangladesh, em 24 de abril de 2013, serviu de marco para o surgimento da campanha, que tem como objetivo conscientizar os consumidores sobre os verdadeiros impactos ambientais e sociais causados pela indústria da moda no mundo e, ao mesmo, celebrar quem já trabalha na construção de um futuro mais transparente e  justo para todos. Ele chegou no Brasil através da Fernanda Simon, que, logo no primeiro ano de celebração, em 2014, trouxe a discussão para diferentes eventos de moda, design e sustentabilidade.

Quais são os principais objetivos do Fashion Revolution? E como ele atua?

O movimento surgiu com os objetivos de:

• aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seus impactos em

todas as fases do processo de produção e consumo;

• mostrar ao mundo que a mudança é possível através da celebração dos envolvidos na criação de um futuro mais sustentável;

• criar conexões e trabalhar rumo à mudanças de longo prazo, exigindo transparência

na indústria e nos negócios.

O Fashion Revolution atua com bastante força nos canais de comunicação online e também propõe palestras, eventos e ações ao redor do mundo através de 2 grande frentes, a de informação/educação e sensibilização/conscientização.

Vocês acreditam que está havendo uma mudança no comportamento dos consumidores em relação ao consumo de moda? Porque acreditam que isso está acontecendo e como o movimento colabora para essa mudança?

No Brasil, ainda é bastante recente a discussão sobre sustentabilidade e consumo consciente na moda, mas já é possível sentir uma diferença de comportamento consumidor. Ainda são poucos os que realmente se interessam pela origem dos produtos e questionam de fato o que consomem, mas já dá pra notar que esse mercado (independente) está crescendo com rapidez, tanto por vontade das marcas, quanto dos consumidores.

O Fashion Revolution colabora ao incentivar as pessoas a questionarem as marcas sobre a origem de suas roupas (calçados, bolsas, joias e acessórios também valem) e exigirem maior transparência com relação aos seus modelos de negócio. Esse é o primeiro passo para uma abertura de diálogo entre produtor-marca-consumidor, uma maneira de reconectar os elos perdidos em uma cadeia tão complexa como a da moda. Essa pergunta também ajuda a abrir os olhos do consumidor, que passa a ficar mais informado e consciente sobre o que realmente pode estar por trás do que vestimos.

Como vocês avaliam as ações e resultados desde o primeiro ano do movimento?

Os resultados têm sido bastante animadores, o número de pessoas envolvidas com o movimento, seja como colaborador, parceiro ou audiência cresce com bastante rapidez. Só aqui no Brasil, em 2016, tivemos 54 eventos em 29 cidades durante a Fashion Revolution Week (24 a 30 de abril) e a participação de mais de 30 faculdades de moda na campanha, isso sem contar todo o fluxo nas mídias. Além disso, tivemos a ação de conscientização, Fashion Experience, por 2 vezes na cidade de São Paulo, sensibilizando mais de 2 mil pessoas.

O movimento tem uma forte atuação nas instituições de ensino de moda, para vocês, qual a importância da educação e papel dos estudantes para modificar o cenário atual do setor?

O papel da educação é extremamente importante, já que as faculdades são responsáveis pela qualidade de profissionais que entrarão no mercado e passarão a tomar as decisões no futuro, e essas decisões geram consequências para todos. Não se pode fechar os olhos para as questões éticas e de sustentabilidade só porque elas representam desafios para o sistema de mercado vigente, na verdade, elas devem ser encaradas como soluções para o futuro, que depende inteiramente de pessoas bem preparadas para enfrentá-los.

Como as pessoas podem participar do Fashion Revolution?

O movimento é aberto para todos os amantes da moda e aqueles que acreditam no poder de transformação. A maneira mais fácil de participar e apoiar o movimento é postando uma selfie e perguntando à marca que está vestindo: “quem fez minhas roupas?” e usando as hashtags: #whomademyclothes #quemfezminhasroupas #fashrev. Para quem quiser saber mais sobre o movimento, como participar da campanha ou de eventos, podem acompanhar o Fashion Revolution Brasil através das nossas redes sociais:

Facebook: fashionrevolution.brasil

Instagram: @fash_rev_brasil

Twitter: @Fash_Rev_BRASIL

www.fashionrevolution.org

O que vocês esperam do movimento para os próximos anos?

Esperamos que ele continue crescendo e tenha uma vida longa aqui no Brasil e ao redor do mundo, informando, conscientizando e envolvendo cada vez mais consumidores, marcas, indústria, imprensa e governos na a criação de melhores condições de trabalho, processos mais limpos e formas de consumo mais conscientes.

Acompanhe o movimento pelo site www.fashionrevolution.org e suas redes sociais.

>> Fashion Revolution Week 2017 | Brasil <<

 Para realização da Fashion Revolution Week 2017, que acontecerá nos dias 24 a 30 de abril, o Fashion Revolution Brasil está com uma campanha de financiamento coletivo no site Benfeitoria e conta com a ajuda de todos os revolucionários da moda para fazer acontecer!

 Com o valor arrecadado será possível a produção de 4 grandes eventos nacionais, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, que contarão com workshops práticos, exposições, exibições de filmes, entre outras atividades.

Para cada contribuição, o Fashion Revolution Brasil preparou várias recompensas. Informações sobre a campanha aqui. Colabore 🙂

Sobre sustentabilidade e gratidão

Você conhece a expressão japonesa Mottainai? Tiemi Yamashita, especialista em sustentabilidade nos contou tudo sobre esse conceito.

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foto por Gaelle Marcel, site unsplash

Já falamos no Blog SDF que hoje tratamos nossas roupas e muitas coisas que compramos como bens descartáveis, gerando quantidades imensas de resíduos e impactos negativos ao planeta. Mas aqui vem mais uma bela razão do porque precisamos repensar essa cultura do use e descarte!

Mottainai, significa “o não desperdício”. Essa expressão japonesa nos ensina a “reconhecer o valor de todos os recursos ao nosso redor e, a partir disso, aproveitar tudo com respeito e gratidão, eliminando o desperdício”.

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Tiemi Yamashita

O SDF conversou com Tiemi Yamashita, referência em Mottainai no Brasil, criadora de projetos inovadores que mesclam responsabilidade socioambiental e desenvolvimento humano como Desafio do Bem e Caia na Real, além de professora convidada nos módulos de sustentabilidade dos cursos de MBA do Biinternational School e pela Faculdade Cásper Libero de São Paulo, para nos explicar esse conceito e como podemos aplicá-lo no nosso dia a dia para consumirmos com mais consciência e sem desperdício.

Primeiramente poderia contar um pouco de sua história e sua relação com o tema sustentabilidade?

Neta de japoneses, cresci dentro de uma cultura em que não se desperdiça nenhum tipo de recurso, pois tudo tem seu valor e precisa ser respeitado e valorizado.  Confesso que eu não entendia e até reclamava de ficar aproveitando a água da chuva, reaproveitando embalagens de margarina, usando roupas que já foram usadas pelos irmãos mais velhos. Mas depois de adulta fui fazer um curso de especialização em Sustentabilidade e descobri que o primeiro passo para praticarmos a sustentabilidade  é eliminar os desperdícios. Entendi que eu já praticava sustentabilidade desde pequena.

O que significa Mottainai e qual sua importância na cultura japonesa? E como ele está relacionado com a sustentabilidade?

Mottainai é uma expressão japonesa que geralmente quer dizer “desperdício” porém, o verdadeiro significado da palavra é MOTTAI –  DIGNO   e NAI – NÃO , ou seja   na verdade o significado é “não ser digno”.

Quando você escuta um japonês dizer “Mottainai”, ele não está simplesmente dizendo “que desperdício”  ele está dizendo “você não está sendo digno deste recurso!”.  Acho que isso é o cerne da sustentabilidade, se nós formos dignos de todos os recursos que possuímos, teremos atitudes mais sustentáveis.

Você acredita que o conceito Mottainai colabora com a vida das pessoas?

Sim, quando entendemos o conceito do Mottainai, passamos a ter escolhas mais conscientes.  Não só entendemos, mas principalmente sentimos os desperdícios e por isso fazemos escolhas  mais  sustentáveis.

Como você analisa o consumo na sociedade atual e como nos relacionamos com o desperdício?

O consumo na sociedade atual é insustentável. Um consumo focado no “TER” para ostentar.  É preciso lembrar que quando se compra algo ele é seu 24 horas por dia e 7 dias da semana. E quanto você de fato usa?  Pensar em sustentabilidade é pensar na usabilidade de tudo o que se consome.

Já faz alguns anos que os temas sustentabilidade e consumo consciente vem ganhando cada vez mais destaque, na sua opinião as pessoas e empresas estão realmente se preocupando com as questões socioambientais? Você acredita que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas?

Sim, principalmente com a crise econômica que está provocando mudanças em todos os níveis. A falta de dinheiro para comprar as roupas novas, está fazendo com que sejam aceitas novas formas de consumir ou de reaproveitar ou reciclar. As pessoas estão mudando para casas menores e estão tendo que escolher o que realmente importa, percebendo que ter demais também dá trabalho. Tem uma frase que diz assim: Quanto menos eu consumo, percebo que menos eu preciso. Quanto menos eu preciso, mais livre me sinto.

Consumir menos não é se sentir mais pobre ou inferior, é entender que precisamos de menos e consumir menos é libertador.

Como praticar o Mottainai no dia a dia e consumir de forma consciente em um mundo cheio de excessos?

Para praticar o Mottainai é preciso seguir 3 passos simples:

  1. Dar o valor –  Isto é, se perguntar: Qual o real valor deste recurso? Indo muito além do valor monetário. Por exemplo, qual o valor da água para minha vida?

  2. Reconhecer a Cadeia –  Reconhecer que para esse recurso chegar até você, ele passa por uma longa cadeia de extração, produção e comercialização. Um alimento passa por milhares de mãos, dezenas de processos até chegar a sua mesa. Com o objetivo de nos alimentar.

  3. Sentimento de Gratidão –  Depois de dar o valor e reconhecer a cadeia, sentimos gratidão por termos acesso a este recurso, pois muitas pessoas no planeta não tem acesso a recursos básicos.

E como podemos demonstrar Gratidão de forma concreta? Não desperdiçando nada.

Nesse vídeo a Tiemi Yamashita fala um pouco mais sobre consumo consciente e sustentabilidade, vale a pena conferir.

Para saber mais sobre o Mottainai e o trabalho da Tiemi acompanhe seu site e canal no youtube.

Site: www.mottainaisustentabilidade.com.br

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCB7v-F6nkvyV-vNlXqVrMbQ

Email: tiemi@mottainaisustentabilidade.com.br

Brechó não é coisa do passado, confira a entrevista com Ana Mastrochirico criadora do site Garimpo Mag

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Comprar em brechós não é nenhuma novidade, seja para encontrar roupas de décadas passadas e exclusivas ou simplesmente para economizar, o garimpo de peças é um hábito antigo e está ganhando cada vez mais força nesse momento em que estamos repensando nossos hábitos de consumo, já que optar por comprar peças de segunda mão, reutilizando-as e estendendo seu ciclo de vida, parece ser a opção mais sustentável que há.

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Ana Mastrochirico

O mercado de brechós no Brasil também foi impulsionado pela crise econômica que estamos vivendo, o aumento de lojas, principalmente, virtuais oferecem bons produtos a preços mais acessíveis. O setor movimenta 5 milhões por ano no país.

Para conhecer mais sobre esse universo convidamos a Ana Mastrochirico, designer gráfica e idealizadora do site Garimpo Mag, para contar um pouco sobre sua experiência no garimpo de roupas e ajudar aqueles que ainda não se aventuraram entre as araras cheias de peças com histórias.

1. Conte para nós um pouquinho sobre seu site e de onde surgiu seu interesse por brechós e por garimpo de peças.

A Garimpo foi uma consequência do hábito de comprar em brechós. Essa prática vem de família, minha mãe sempre ia em brechós e me levava junto. Quando mais nova não entendia o quanto isso tinha algo de positivo, mas depois de mais velha, já na universidade adotei cada vez mais esse hábito. No primeiro momento era uma questão de gostar apenas, é muito bom achar uma peça de roupa única pra chamar de sua e que ninguém mais vai ter, a exclusividade era o que mais me atraia.

Como sempre estava usando looks de brechós e as amigas elogiavam e perguntavam como eu achava essas coisas legais, resolvi começar uma página no facebook pra falar sobre o assunto, mostrar as peças que encontrava e indicar brechós na cidade de Vitória – ES, onde morava. Quando vi que eu gostava mesmo de falar sobre brechós resolvi começar o blog. Isso já tem uns 3 anos.

Em 2015 passei o ano todo fazendo o projeto #365diasdebrecho. A proposta que cumpri foi ficar 1 ano inteiro usando apenas peças de second hand e brechós, pra mostrar que dava sim para adotar uma nova forma de consumo. Nesse tempo meu olhar sobre o assunto foi amadurecendo e também comecei a vender algumas roupas que selecionava em minhas idas aos brechós como uma forma de fazer um ciclo sustentável de consumo. O blog foi importante para falar sobre a experiência e abordar cada vez mais assuntos relacionados ao consumo consciente também.

2. Para você o que é mais importante ao comprar uma roupa em um brechó?

O mais importante é a qualidade, nesse sentido analiso bem para ver se não tem defeitos. Além disso gosto de roupas vintage, com uma carinha mais diferenciada, coisas que a gente não encontra em lojas comuns. E gosto de escolher peças que possam combinar com o que tenho em casa. Ter um guarda-roupa reduzido ajuda muito nessa hora, fica mais fácil pensar nas possibilidades de combinações na hora que estou garimpando.

3. Você acredita que existe uma nova tendência de consumo em brechós? Porque acha que isso está acontecendo?

Sim, acredito! São vários fatores, mas acho que atualmente o principal deles é crise financeira pela qual o país está passando. O poder aquisitivo diminuiu e as pessoas encontraram outra forma de consumir e até empreender, por isso essa tendência de surgimento de mais brechós. As pessoas compram nos brechós por conta do preço baixo e com o tempo começam a perceber que esse é um mercado rentável e que envolve também responsabilidade ambiental, ou seja, acredito que comprar em brechós está se tornando uma tendência pela facilidade e necessidade. Espero que essa tendência fique por um bom tempo, pois acho que ter essa consciência de um consumo baseado em reutilização é o futuro.

4. Quais principais conselhos que você daria para alguém antes de comprar em um brechó? 

Hoje existem vários tipos de brechós, aqueles que são bagunçados e realmente cheiram a naftalina e outros que são um pouquinho mais gourmetizados e que já tem uma pré-seleção das peças. Nesse último é como comprar em uma loja, pois tudo é bem organizado. Mas, pra quem prefere garimpar MESMO, o melhor lugar pra achar peças vintage são os brechós bagunçadinhos. Nesse caso, é sempre bom ter olhos atentos, visualizar bem as peças e principalmente experimentar antes de comprar, uma vez que as modelagens de roupas antigas são um pouco enganadoras.

Em relação a tecidos e estilos vai muito do gosto pessoal. No meu caso, quando entro em um brechó vou primeiro nas peças com estampas, que normalmente são lindas e muitos bem trabalhadas. Prefiro peças de linho e de preferência com uma modelagem bem diferente. Acho que o bacana de um brechó é encontrar roupas de outras décadas, elas tem uma qualidade muito maior do que as produzidas hoje em dia. Acho que não vale a pena ir em um brechó pra comprar uma roupa da coleção passada de uma fast fashion, sabe!? Ao fim, garimpar em brechó é uma questão de prática, uma forma também de exercitar nossos gostos e conhecer melhor nosso corpo.

5. Na sua opinião quais são as principais barreiras que impedem que muita gente ainda não compre em brechós ou roupas de segunda mão? E como mudar isso?

Acho que ainda existe um certo preconceito, e pelo que vejo, no interior isso é ainda mais forte. As pessoas tem vergonha de serem vistas comprando roupas usadas. Em outros casos é só uma questão de falta de hábito, a pessoa nunca foi, nunca comprou, e nunca precisou, então não vê motivos pra usar roupas usadas.

Por outro lado, todo mundo que entra uma vez em um brechó e encontra uma peça linda pra chamar de sua volta a comprar sempre! Querendo ou não, acho que é tudo uma questão de tendência e informação. Se a amiga compra, a pessoa se sente influenciada a comprar, ou seja, tendência. E quanto mais a pessoa tem informações a respeito do assunto mais ela se sente a vontade para aderir aos brechós. É por isso que a Garimpo existe, a ideia é mostrar para as pessoas que o brechó tem coisa boa sim, e que dá pra se vestir muito bem e ainda contribuir para o meio ambiente, mesmo que indiretamente.

6. Estamos vivendo um momento de repensar nossos hábitos de consumo como você acha que a cultura de brechó e peças de segunda mão colaboram com isso?

Acho que a cultura de brechó é o primeiro passo em direção ao consumo consciente. Pois é prático, é mais comum, é acessível, e é a partir daí que as pessoas passam a se questionar sobre outros assuntos que envolvem seus hábitos de consumo. Ficamos muito tempo condicionados as fast fashions, não existia um questionamento tão ativo sobre o consumo desenfreado como existe hoje.

O brechó é na verdade a porta de entrada para hábitos mais saudáveis de consumo. Muitas pessoas ainda não se dão conta disso e por isso é importante falar cada vez mais sobre o assunto. Pode ser que isso não salve o mundo, mas que vai ser um passo para mudanças maiores, isso vai.

7. Poderia dar algumas dicas de brechós que você conhece e que vale a pena conhecer?

Acho legal falar de alguns online, que estão com peças bem legais e conteúdo bacana. E assim também todo mundo pode ter acesso:

Garimpário – É um brechó lá do Sul, pra quem está procurando peças diferentes e casacos mais pesados é uma ótima pedida.

Alabama Hotel – É um brechó relativamente novo, mas eles estão fazendo um trabalho bem legal com conteúdo e editoriais bem bacanas.

Aurora Rouparia – É um brechó com peças antigas, mas com uma pegada bem moderninha. Tem de tudo um pouco e um precinho bem camarada.

No insta também tem muito brechós legais, que fazem vendas como se fosse numa loja online:

@velharia_brecho – Peças vintage muito bem selecionadas, enviam pro Brasil todo

@saravabrecho – Nesse tem roupas pra meninas e meninos. O feed é bem legal, vale a pena dar uma olhada.

@ogarimpobrecho – Esse é o meu brechó, por lá vendo peças que garimpo em brechós em SP. Tudo feito com muito amor e carinho.

Acompanhe o site Garimpo Mag e fique sabendo tudo sobre brechós, garimpo de peças e consumo consciente.

Conheça também outros brechós e iniciativas no site SDF 🙂