Economia Circular e a Indústria da Moda

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Foto: Janko Ferlic | Unsplash

Se pensarmos na maneira como a natureza funciona notamos que não existe desperdício, tudo é aproveitado, é um processo cíclico e harmônico. Agora, se analisarmos como nós, humanos, temos atuado percebemos que nossa abordagem tem sido bem diferente.

Nosso modelo econômico atual é linear, dependemos de grandes quantidades de materiais e energia baratos e de fácil acesso que são processados e transformados em produtos, que logo serão descartados. Segundo o Fórum Econômico Mundial retiramos aproximadamente 65.000 milhões de toneladas de matérias primas ao ano, mas 80% desses materiais se tornam resíduos, o que representa uma perda irrecuperável de cerca de US$2,6 trilhões por ano. Um modelo que se baseia no desperdício e na superexploração de recursos naturais é um modelo insustentável, certo?

Mas a boa notícia é que esse ciclo está sendo quebrado e novos paradigmas estão surgindo, como a Economia Circular. Esse modelo propõe repensar e redesenhar a forma como produzimos e como consumimos, onde tudo possa ser recuperado e reutilizado, como acontece nos ciclos biológicos.

E para entendermos melhor sobre esse tema e sua relação com a indústria da moda, o SDF conversou com a Alice Beyer Schuch e a Tania Gengo fundadoras da ES-Fashion, empresa pioneira na disseminação do conceito de Moda Circular no Brasil. Confira a entrevista abaixo.

1.Primeiramente poderiam contar um pouco sobre vocês e o trabalho da ES Fashion?

Nós, Alice e Tania, nos conhecemos na China e sabemos do lado obscuro que a moda pode seguir… E assim, juntando nossas especialidades – a Alice é mestre em moda sustentável e a Tania é formada em negócios de moda – a ES-fashion surgiu do desejo de usar a moda como uma ferramenta propulsora para o desenvolvimento, não apenas econômico, mas também social e ambiental, disseminando novas perspectivas em que a moda atua, sim, de forma responsável. Para isso, trazemos diversos conceitos vistos na Europa (onde a Alice mora) de forma a ajustar à realidade brasileira (onde a Tania mora). Entre os serviços da ES, estão a consultoria a empresas rumo a circularidade, a elaboração de pesquisas, treinamentos e cursos, e ainda a internacionalização, apresentando as marcas brasileiras sustentáveis ao mercado europeu.

2. O que é economia circular e como ela é aplicada na moda?

A Economia Circular é um sistema restaurativo e regenerativo por design. Isso quer dizer que quando desenvolvemos produtos, lá em sua fase embrionária, já pensamos em desenvolvê-los de forma a não prejudicar (ou até beneficiar) ao final de seu ciclo inicial o nosso capital social e natural – pessoas, água, energia, recursos. Além disso, se sugerem novos modelos de negócios para manter estes itens em uso por mais tempo para que o valor investido em sua produção não se perca após essa primeira fase. 

 Na moda, isso se aplica diretamente na melhor seleção de têxteis, escolhendo alternativas de menor impacto por exemplo, como as fibras orgânicas ou ainda recicladas. Podemos também incluir estratégias de design que favoreçam o uso contínuo ou por mais tempo de peças, suas partes e materiais utilizados. Ou ainda, aplicamos um modelo de negócio que promova trocas, compartilhamento e similares. A ideia é buscar alternativas que reduzam essa pressão sobre pessoas e total dependência em nossos recursos virgens.

3. Porque é importante pensarmos nesse modelo? E quais são os principais desafios?

A moda convencional é uma indústria que exige muito e impacta irresponsavelmente pessoas e a natureza. Em um modelo circular, onde uma visão holística é fundamental, percebemos nossas interferências e buscamos abordá-las de forma a eliminar estes impactos negativos.

Entre os desafios de se aplicar um conceito tão amplo, a mudança de mindset talvez seja o mais desafiador. Por parte empresarial, é necessário pensar de forma inovadora e disruptiva. Nosso modelo pós revolução industrial não irá trazer as respostas e soluções à essas novas questões. Além disso, é relevante se trabalhar em parcerias, dividindo informações, buscando apoio mesmo entre os assim-chamados “concorrentes” para que se saliente o poder de mudança de um grupo. Por parte do consumidor, como figura importantíssima para fechar os ciclos, por exemplo, a mudança de mentalidade e hábitos também se faz necessária. Deixaremos de ser consumidores e nos tornaremos usuários de moda… E isso envolve repensar e reavaliar nossos velhos padrões de consumo, de necessidade de ter, de compra por impulso, de ver o passeio no shopping como o momento de relax da semana…

4. Qual o papel que o design, a tecnologia, as empresas e os consumidores desempenham na realização dessa prática na moda?

O design, como o próprio conceito de EC diz, é o ponto inicial deste processo. Se produzimos algo sem um pensamento cíclico, teremos, muito provavelmente, dificuldades em reaproveitar este item dentro deste novo sistema, e o mesmo acabará sendo descartado em algum momento. A tecnologia é o que permite a aplicação de novas alternativas, seja no desenvolvimento de novos materiais ou fibras como na realização de mundos digitais que conectam mais facilmente os consumidores ou oferecem produtos de forma virtual. As empresas são o meio pelo qual inovação chegará ao usuário, mas nessa nova perspectiva, todos nós podemos nos tornar agentes de mudança e empreendedores. Grandes exemplos de moda circular estão sendo sugeridos por start-ups que já nasceram com a sustentabilidade em seu DNA. Por fim, os consumidores – que preferimos chamar usuários de moda – tem o poder de decisão quando de sua escolha por um ou outro produto, um ou outro sistema. Mesmo assim, muitos ainda não estão conscientes de seu papel, e nunca estarão. Para esses, o sistema deverá ser desenvolvido em paralelo e eles acabarão por fazer parte de forma automática, inconsciente, “indolor” (sem concessões ou sacrifícios).

5. Como as marcas e empresas do setor da moda estão adotando a economia circular em seus negócios? Poderiam nos dar alguns exemplos concretos dessa prática?

Existem muitas frentes que podem ser abordadas. Temos visto muitos materiais e processos alternativos surgindo, como couros de cogumelo ou chá, fibras de alga ou de descarte de outros setores como as cascas da laranja, ou ainda tingimento com bactérias, sem água e sem químicos tóxicos, curtimento com folha de oliveira. Existem também empresas apostando no reuso de descarte têxtil pré ou pós consumidor para a produção de novos itens de moda ou investindo em novos negócios de compartilhamento, de reuso e manutenção de roupas que já estão circulando por aí. Em todos estes aspectos, é relevante para as empresas a provisão de informação clara e objetiva sobre o que tem sido feito, como e por quem, mostrando o caminho trilhado e ainda os próximos passos a serem adotados.

6. Como vocês analisam o cenário na Europa sobre esse tema e no Brasil? E o que podemos aprender com os países que já estão mais atuantes nesse setor?

A Europa já vem oferecendo moda com baixíssimo impacto há mais de 40 anos e tem usuários muito mais predispostos a participarem dessas mudanças. Além disso, o apoio a pesquisa e desenvolvimento científico, por exemplo, ou a novos programas de impacto positivo já são o status-quo.

Quando comparamos com o Brasil, ainda estamos atrelados culturalmente à necessidade de ter mais pelo menor preço (mesmo que a qualidade não compense) e preferencialmente a mudar sempre – o carro do ano, o telefone de lançamento, a roupa da vitrine. A grande diferença é que não existem estruturas no Brasil que recolham esse material de forma a possibilitar o seu reaproveitamento. E tudo acaba indo para o lixão – com exceção de nosso belo exemplo de reciclagem de latas de alumínio! O que o Brasil deve fazer, é estar atento à estas mudanças e aplicar de forma adaptada a sua realidade sem esperar pelo apoio de iniciativas públicas, trabalhando de forma conjunta com diferentes stakeholders. A união faz a força, não é mesmo?

7. Para vocês qual o futuro da moda?

A moda no futuro se tornará algo misto, onde a tecnologia e desenvolvimento existirão a favor da natureza e das pessoas e gerará novos setores, novos tipos de trabalho e consequentemente novas formas de movimentação financeira. A democratização de uma moda sustentável, sem tóxicos, impactos negativos, de alta circulação e benéfica socialmente será o padrão oferecido. Grandes alterações poderão também ser vistas no sistema educacional, onde as mudanças deverão ser aplicadas de forma dinâmica e efetiva, instigando a criatividade investigativa mais que o seguimento de padrões e tendências, a cor da estação!

8. Para quem quiser saber mais sobre economia circular poderiam dar sugestões de livros e/ou sites?

Fundação Ellen MacArthur tem feito um trabalho exemplar em muitos setores. Suas inúmeras publicações nos dão uma base claríssima das possibilidades deste novo sistema, inclusive com estudos sendo iniciados na área de moda. No Brasil, temos a Exchange 4 Change fazendo um trabalho voltado exclusivamente para nosso país, que acaba de lançar o primeiro livro em português sobre o tema. Leitura fundamental também são os livros Cradle to Cradle, The Upcycle e ainda Waste to Wealth que, apesar de não serem específicos para a moda, nos abrem o olhar para uma visão holística e sistêmica de nossas ações. O site da ES ainda tem uma biblioteca onde atualiza regularmente publicações do Brasil ou traduzidas sobre o assunto.

Para saber mais sobre ES-Fashion e acompanhar seus projetos acesse o site: http://es-fashion.net/  e acompanhe seu Blog e Instagram.