As mulheres por trás das nossas roupas e que fazem a moda acontecer

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Imagem:pixabay

O Dia Internacional da Mulher, celebrado no dia 08 de março, é o resultado de uma série de protestos no qual mulheres, principalmente na Europa e nos EUA, reivindicavam melhores condições de trabalho e direitos sociais e políticos. Esses protestos tiveram início no final do século 19 e no início do 20, e, décadas mais tarde, ainda precisamos e – estamos – lutando pelos seus direitos.

Segundo o Relatório Global de Desigualdade de Gênero de 2016, elaborado pelo Fórum Econômico Mundial, a desigualdade de gênero tem diminuído nos últimos anos, porém houve uma desaceleração nos últimos três anos e caso o ritmo dessas transformações continue o mesmo, questões como paridade salarial só serão alcançadas em 169 anos! Desanimador, não?!

Proteger e exigir os direitos das mulheres é sem dúvida mais importante do que nunca e o setor da moda tem uma enorme responsabilidade e poder para promover mudanças positivas. A indústria têxtil e de vestuário é, e tem sido historicamente, uma das indústrias mais dominadas pelas mulheres. Dos estimados 40 milhões de trabalhadores em todo o mundo, cerca de 85% da força de trabalho são do sexo feminino.

Mas porque ainda ignoramos o fato de que apesar desse setor ser amplamente concebido por e para mulheres a moda, muitas vezes, não as trata da maneira como merecem? Vemos constantes abusos e violações presentes no setor, como salários menores que aos trabalhadores do sexo masculino, discriminações, além de assédios e oportunidade apenas em postos de trabalho mais baixos e com pouca perspectiva de promoção.

Dados coletados pelas fábricas da RMG [Ready Made Garment] em Bangladesh apontam que 4 em cada 5 trabalhadores da linha de produção são do sexo feminino, enquanto pouco mais de 1 em cada 20 supervisores é uma mulher.

Nos países como China, Bangladesh e Camboja onde a mão de obra feminina corresponde a 70%, 85% e 90%, respectivamente, o desenvolvimento , econômico e social, dessas mulheres está intimamente ligado às suas condições de trabalho. Se não há valorização, um salário decente e direitos respeitados, essas mulheres não são capazes de sair da pobreza e proporcionar melhores condições para suas vidas e de suas famílias e, consequentemente para a comunidade em que vivem.

Segundo a UNESCO, “As mulheres sempre foram – e permanecem – a influência decisiva na qualidade de vida e bem-estar de suas famílias e comunidades. No entanto, suas necessidades, seu trabalho e suas vozes muitas vezes não são considerados uma prioridade. Como resultado, as mulheres em muitos países não têm acesso igual à educação, saúde, emprego, terra, crédito, tecnologia ou poder político”.

Mas, se as mulheres estão sendo ignoradas e não possuem as mesmas oportunidades que os homens, todo o mundo só tem a perder. Para o Fórum Econômico Mundial é evidente o efeito positivo do aumento da igualdade de gênero no crescimento econômico, afinal as mulheres são a metade da população mundial e estamos desperdiçando esses talentos.

De acordo com o Relatório Global de Desigualdade de Gênero de 2016: “Em todos os países, aproveitar plenamente as capacidades das mulheres abre caminho para otimizar o potencial do capital humano de uma nação”.

Mesmo com todos os desafios, há muitas mulheres que estão se mobilizando em sindicatos e outros movimentos de trabalhadores para eliminar as desigualdades e explorações presentes na indústria da moda. Além disso, vemos muitas marcas e iniciativas que incentivam e empoderam as mulheres buscando gerar mudanças positivas nas comunidades em que vivem e no setor.  Marcas como Raven And Lily, People Tree, Freeset, Indego AfricaCatarina Mina, Bossa Social e Rede Asta são alguns exemplos.

Como consumidores, precisamos avaliar nossas escolhas e o papel que desempenhamos no ciclo de consumo, buscar informações e, claro, apoiar iniciativas e marcas que valorizam a mão de obra feminina, além de exigir mudanças nas leis e nas condições de trabalho do setor. Afinal, não podemos esperar até o ano 2186 para isso acontecer, certo?

Mais sobre o assunto

Documentário “She´s beautiful when she´s angry” 

The women who make your clothes – Labour Behind the Label

“Nada de incêndio na fábrica! Esta é a verdadeira história do 8 de março” – Revista AzMina

10 princípios Fair Trade

Debate sobre status quo e a desigualdade de gênero – Reunião Anual Fórum Econômico Mundial 2017

Princípios ONU de empoderamento das mulheres


Referências

http://reports.weforum.org/global-gender-gap-report-2016/

http://www.modefica.com.br/moda-e-feminismo-dia-das-mulheres/#.WLl9nfkrLIU

http://thenotepasser.com/blog/2015/2/18/empower-women-through-sustainable-fashion

https://www.theguardian.com/sustainable-business/sustainable-fashion-blog/fashion-brands-empowering-women-developing-countries

https://europa.eu/eyd2015/en/fashion-revolution/posts/exploitation-or-emancipation-women-workers-garment-industry

http://www.unesco.org/education/tlsf/mods/theme_c/mod12.html?panel=3#top

http://www.teoriaedebate.org.br/?q=estantes/livros/origens-e-comemoracao-do-dia-internacional-das-mulheres

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Porque precisamos entender como funciona a produção de nossas roupas

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Estamos tão desconectados da fabricação de nossas roupas e das coisas que compramos que é muito comum esquecermos que, por trás da produção de uma simples peça, há uma longa cadeia que envolve inúmeras pessoas e recursos. Do cultivo do algodão até transformá-lo em fio e depois em tecido, do tingimento à costura, do transporte e distribuição às lojas.

A cadeia produtiva têxtil e de vestuário geralmente é bem vasta e complexa. Para termos uma ideia dessa complexidade, o infográfico abaixo – desenvolvido pela equipe Scraps: Fashion Textiles and Creative Reuse – nos ajuda a visualizar todas as etapas.

infografico-textile-chain
para visualizar em português use o app do google tradutor

 

Quanto mais extensa for essa cadeia mais difícil para a empresa conseguir manter o controle sobre ela. A grande maioria das marcas hoje terceirizam sua produção e, muitas delas, não sabem onde, por quem e em que condições são feitos seus produtos.

Se desconhecemos o que está acontecendo, como corrigir o problema? Por isso, o primeiro passo para a mudança é a transparência.

E é acreditando nisso que a Ong inglesa Fashion Revolution juntamente com a Ethical Consumerpublicaram um relatório chamado Fashion Transparency Index (índice de transparência na moda, em tradução livre) que classifica as empresas de acordo com o nível de transparência em sua cadeia de suprimentos.

A primeira edição do Fashion Transparency Index inclui 40 das maiores marcas globais de moda, que foram selecionadas com base no volume de negócios anual. O objetivo foi descobrir o que essas empresas estão fazendo para melhorar os padrões sociais e ambientais e o quanto dessas informações são compartilhadas com o público. Veja as marcas aqui.

“Being transparent creates the opportunity for collaborative action between companies, governments, NGOs, unions and the public to work towards building a fairer, cleaner and safer fashion industry”, Fashion Transparency Index.

Outra iniciativa que ajuda a identificar práticas das empresas é a Know the Chain, que avaliou os esforços de 20 empresas do setor de vestuário e calçados para proteger e erradicar o trabalho análogo ao escravo em suas cadeias produtivas globais. Veja as marcas aqui.

A marca de roupas esportivas Patagonia é referência no setor, pois informa aos seus clientes todo o ciclo de produção de uma peça e quais os custos ambientais e sociais para que ela seja feita. Todas as informações estão disponíveis no site da marca. Veja o mini documentário “Fair Trade: the first step” (comércio justo, o primeiro passo) realizado pela marca.

Já a empresa americana Planet Money criou uma série de vídeos no qual explica, em cada capítulo, uma etapa do processo de fabricação de sua camiseta. O objetivo é contar a história das roupas e das pessoas por trás delas.

No Brasil, vemos iniciativas como a Moda Livre, já citada no Blog SDF, um aplicativo avalia as principais varejistas de roupa do Brasil e empresas que já foram flagradas pelos fiscais do Ministério do Trabalho (MTE) em casos de trabalho escravo.

Além de marcas como Flavia Aranha e Catarina Mina, que expõem ao consumidor todas as informações a respeito das etapas de suas produções e as pessoas envolvidas. Muitas marcas estão adotando ferramentas que ajudam a rastrear todo o processo de produção e buscam certificações, como a Certificação de Fornecedores – ABVTEXe o Sistema B, por exemplo.

Já como consumidores, a partir do momento que temos informações a respeito e entendemos como são fabricadas as peças de roupas, calçados ou qualquer coisa que compramos, temos mais consciência de todo esforço e recursos necessários. Como consequência, faremos melhores escolhas em cada compra, além de pressionar as empresas e governos por mais transparência e soluções.

Sabemos que qualquer produto para existir gera impactos, sociais e ambientais, por isso, informação e transparência são fundamentais para que as marcas possam identificar e ajustar os problemas encontrados.


Referências

http://www.ecouterre.com/this-graphic-sums-up-how-complex-the-fashion-supply-chain-is/

http://fashionrevolution.org/wp-content/uploads/2016/04/FR_FashionTransparencyIndex.pdf

http://fashionrevolution.org/como-a-transparencia-pode-ajudar-a-transformar-a-industria-da-moda/