A escravidão escondida entre as máquinas de costura

 

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Crédito foto: Renato Bignami | Repórter Brasil

Notícias sobre o cenário de violações de direitos em que muitos trabalhadores da indústria têxtil estão submetidos não são novidade. Mas, engana-se quem pensa que trabalho análogo ao escravo, trabalho infantil, péssimas condições e jornadas exaustivas são problemas distantes do Brasil, infelizmente essa situação está bem próxima de nós.

Quer um exemplo? Essa semana auditores do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego responsabilizaram a empresa Brooksfield Donna por trabalho escravo e infantil. Foram encontrados em uma pequena oficina no bairro de Aricanduva, em São Paulo, cinco trabalhadores bolivianos, incluindo uma menina de 14 anos, que viviam e trabalhavam em condições precárias. O grupo não tinha carteira assinada ou férias e os salários dependiam da quantidade de peças produzidas (R$6,00 em média por roupa costurada). Leia a matéria completa aqui.

Este é mais um caso triste e vergonhoso que vem mascarado em roupas de luxo que podem ultrapassar R$ 500,00. Infelizmente há muitos outros envolvendo marcas nacionais. A ONG Repórter Brasil acompanha as fiscalizações nas confecções desde 2009 (aqui estão algumas marcas que já foram flagradas nessa situação).

Mas o que caracteriza um trabalho escravo nos dias de hoje?

De acordo com o artigo 149 do Código Penal brasileiro, esse tipo de relação se dá quando: existem condições degradantes de trabalho, jornada exaustiva, trabalho forçado e servidão por dívida. Em resumo, todo o regime de trabalho humilhante que prive o trabalhador de sua liberdade, além de ferir sua dignidade.

Estima-se que atualmente mais de 40 milhões de homens, mulheres, crianças e adolescentes no mundo vivam nessa situação, atuando em diversos setores para fabricação de produtos que consumimos diariamente.

No Brasil a existência do trabalho escravo contemporâneo foi reconhecido pelo governo em 1995, sendo uma das primeiras nações do mundo a admitir o problema em seu território. Até 2013, os maiores indices eram encontrados em atividades econômicas rurais, porém a partir deste ano as violações  se deram principalmente na zona urbana, em setores como a construção civil e têxtil.

O número de crianças e adolescentes que trabalham em confecção e comércio de tecidos, artigos de vestuário e acessórios também é alarmante, estima-se que mais de 114 mil encontram-se nessa situação apenas no país.

Buscando, justamente, sensibilizar e conscientizar os consumidores, entre os dias 16 a 22 de junho a Fashion Revolution Brasil organizou em São Paulo a sua segunda edição do Fashion Experience. A instalação, realizada juntamente com o Ministério Público do Trabalho, a organização internacional 27 Million e o movimento global Stop The Traffik, simulava uma loja itinerante com ofertas de roupas a R$9,90. Ao entrar o visitante se deparava com uma oficina de costura em condições precárias. O objetivo da ação era impactar, mas também mostrar alternativas e possibilidades de mudança, além da importância do consumo consciente. Saiba mais sobre a ação aqui.

Ações como da Fashion Revolution Brasil são fundamentais para despertar a consciência e  percepção do nosso protagonismo como consumidores. Temos um poder gigante nas mãos e precisamos colocar isso em pratica! Devemos sempre  questionar as marcas e exigir mais transparência! É nossa responsabilidade também  saber qual a procedência dos produtos que compramos!!

Façamos disso um lema: #quemfezminhasroupas?

Saiba mais sobre o assunto:

Trabalho Escravo Contemporâneo – 20 anos de combate no Brasil – Repórter Brasil 

Global Slavery Index – Region Analysis – The Americas 

Fashion Revolution

Conheça Ongs que trabalham para erradicação do trabalho escravo e tráfico de pessoas:

27 Million

Stop The Traffik 

Conhece algum caso de trabalho escravo? Denuncie aqui.


Referências

https://www.walkfree.org/modern-slavery-facts/

http://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-escravo/WCMS_393066/lang–pt/index.htm

http://www.ilo.org/brasilia/noticias/WCMS_476140/lang–pt/index.htm

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36574637

http://reporterbrasil.org.br/trabalho-escravo/

http://www.inpacto.org.br/2015/06/oit-alerta-168-milhoes-de-criancas-realizam-trabalho-infantil-no-mundo/

http://escravonempensar.org.br/livro/capitulo-1/

http://fashionrevolution.org/

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Mas, por onde começar?

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Sabemos que ir contra o consumo desenfreado e as tendências de moda não é fácil, afinal vivemos nesse sistema e crescemos acreditando que comprar é sinônimo de satisfação.

Então, por onde começar?

 Repense, entenda e questione-se

 Vale sempre pensar: será que realmente preciso de tudo o que compro?

 Não trata-se de deixar de consumir, mas podemos pensar duas vezes antes de comprar e se for realmente necessário, termos critérios para a escolha da marca.

 Por isso, antes de se deixar seduzir por alguma promoção, é melhor dar uma olhadinha no guarda-roupa e conferir se realmente está faltando alguma coisa. Lembre-se: reflita e repense seus atos!!

 Além disso, é fundamental entender todo o contexto e processo de produção da moda. Busque informações e questione, pois existem muitas marcas grandes criando estratégias de marketing para parecer mais “verde”, mas que no fundo, de verde só tem a cor da peça. Certifique-se e seja curioso. Não aceite respostas pela metade!

 Reinvente-se e faça durar as peças que você já tem

 Calma, não precisamos nos desfazer de todo guarda-roupa porque a maioria das peças vem de marcas fast fashion. Afinal, os impactos  para a produção destas roupas já foram gerados e jogá-las fora não seria a solução, contribuindo apenas para o aumento da produção de lixo. É nosso dever amenizar  esses danos!

 Faça suas peças durarem ao lavar menos e preferindo utilizar água fria ou morna. O jeans, por exemplo, não precisa ser lavado constantemente. Evite secadoras e sempre verifique as instruções indicadas nas peças (mais da metade da energia usado no ciclo de vida do algodão vem dos processos de lavagem e secagem).

Outra dica é customizar e reformar suas roupas. Aprenda a costurar ou visite a costureira do bairro. Existem vários projetos legais como a Costureirinha que organiza oficinas de costura e o projeto Re-Roupa, da Gabriela Mazepa, que ministra oficinas ensinando a técnica de upcycling (transformar resíduos em novos produtos). O pinterest também é uma ótima ferramenta para encontrar inspirações de projetos e tutoriais ao estilo “faça você mesmo”.

 Antes de comprar, verifique se não há outras alternativas.

 Hoje encontramos várias alternativas bacanas que incentivam o consumo consciente sem precisar comprar algo novo. Há inúmeros brechós, feiras e eventos de troca de roupas e oficinas de customização e upcycling.

Confira uma lista incrível no nosso site www.slowdownfashion.com.br 🙂

 Trocas de roupas e histórias

 A troca de roupas vem ganhando visibilidade por conta do lançamento de aplicativos e sites que incentivam essa prática. O Projeto Gaveta nasceu com o intuito de difundir o conceito de clothing swap (troca de roupas). Todo ano acontece uma edição e participar do evento é uma experiência que vai muito além da roupa.

 Outro bom exemplo é o aplicativo Tradr, o “tinder de roupas usadas”, em que você troca sua roupa com alguém que também curtiu a sua peça.

 Receber roupas de amigos e familiares que estão se desfazendo de peças que não usam mais é uma outra forma de aproveitar itens que estava em desuso e além disso, que trazem  consigo as histórias e o carinho de cada pessoa querida que lhe presenteou com a peça.

 Se for comprar, opte por peças de qualidade e feitas localmente

 Quando for comprar, escolha produções pequenas e que utilizam tecidos naturais ou reciclados (orgânicos, se puder). Busque peças com maior qualidade e versatilidade. Opte por modelos clássicos ao invés de tendências de moda passageiras,  contribuindo para um guarda-roupa mais durável.

 Incentive produções artesanais, que utilizam técnicas tradicionais ou locais e que apoia a diversidade cultural.

 Lembre-se  que cada gesto conta! 🙂

 Para inspirar: texto sobre Lowsumerism da agência Box1824.

Meu bisavô minimalista

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Crédito foto: thesartorialist.com

A Expressão “menos é mais” é coringa igual a um vestido preto e pode ser usada em diversas situações da vida. Com a devida licença poética, quando penso em um novo jeito de fazer moda, acho melhor dizer que “menos é melhor”.

Não me refiro apenas a menos quantidade ou menos consumo. É investir menos em peças de qualidade duvidosas e datadas e mais naquelas atemporais, minimalistas e bem feitas, que tenham um cuidado com a costura (geralmente feitas a mão), com tecidos de origem nobre (o nobre aqui não é necessariamente caro, mas de boa origem), com cores neutras e cortes clássicos.

Por que isso?

Porque assim elas duram, duram na qualidade, duram no guarda-roupa e nos ajudam a repensar toda a loucura da indústria da moda na qual estamos inseridos. Se seguirmos o formato convencional, a cada 6 meses estaremos malucos, como cachorros correndo atrás do rabo, para adquirir a nova coleção, a nova tendência, vestir a última cor e desfilar pelas ruas o um último grito fashion, como um bando de colegiais uniformizados.

Resgatando as minhas origens, lembrei do meu bisavó Antônio. Ele era uma pessoa de poucos recursos,  comerciante  em São Paulo e depois no litoral. Porém, ao contrário do que  poderíamos imaginar, não utilizava qualquer roupa e andava sempre impecável! Quando perguntavam por que ele gastava dinheiro comprando peças tão boas, dizia que não era rico para comprar porcaria.

Acredito que um dos conceitos do  movimento slow é o resgate à simplicidade, a busca pela essência e aos velhos e sábios hábitos de consumo.

Por isso, vô Antonio, nesses mundo pós-moderno em que a industria da moda de massa ainda dita a moda, sua filosofia continua atemporal, genial.

by Luciana Rego

Slow Down Fashion

Precisamos repensar a maneira que consumimos moda. A indústria têxtil é uma das maiores poluidoras do mundo. Todo ano, cerca de 80 bilhões de peças de vestuário são produzidas mundialmente gerando um enorme impacto ambiental. Além da questão ecológica, sabemos das terríveis condições de trabalho que estão presentes nessa indústria.

Enfim, não dá mais para ignorar os impactos gerados, precisamos consumir menos e fazer melhores escolhas.

E é exatamente essa a proposta do movimento Slow Fashion, é uma visão para a indústria têxtil e de moda com base na integridade ecológica e qualidade social através de produtos, prática de uso e relações.

Construir um relacionamento ético e justo, usar materiais locais e de qualidade, gerar menos impacto ambiental e adotar novas alternativas de consumo são alguns dos valores desse movimento.

Várias marcas e projetos que estão alinhados aos valores do Slow Fashion já existem e o objetivo do site Slow Down Fashion é reunir tudo isso em um só lugar.

Slow Down Fashion é um guia de marcas locais e inovadoras, além de um espaço para divulgar e compartilhar novos projetos e ideias.

Cada decisão que você faz como consumidor importa e pode ajudar a construir uma sociedade mais sustentável, começando pela moda.