Patagonia: histórias por trás das roupas

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Foto Instagram @patagonia

“Fabricar o melhor produto, não causar dano desnecessário, e usar o negócio para inspirar e implementar soluções à crise ambiental“, essa é a missão da marca californiana Patagonia que com mais de 30 anos no mercado produzindo roupas esportivas para práticas de esporte ao ar livre, segue fiel aos seus valores e é referência em práticas sustentáveis.

Yvon Chouinard, alpinista, amante da natureza e fundador da marca percebeu que seu modelo de negócio, desde a iluminação em suas lojas até o tingimentos das camisetas, geraria poluição e impactos, por isso, se comprometeu a reduzi-los com ações efetivas em toda a cadeia de produção e pós-consumo da marca.

Já nos primeiros anos de vida a Patagonia adotou o uso de materiais naturais e recicláveis para o desenvolvimento de todas as peças. Desde 1985, doa 1% de sua receita ou 10% do seu lucro (o que for maior) para grupos de proteção do meio ambiente.

A empresa é transparente em relação as suas informações e práticas, disponibilizando em seu site o código de conduta e condições de trabalho e, também publica anualmente as listas das fábricas e resultados das auditorias. Além disso, em 2007, criou o programa The Footprint Chronicles® que disponibiliza informações de cada produto, além de contar a história de todos os envolvidos na cadeia produtiva. O programa tem como objetivo ajudar a reduzir os impactos sociais e ambientais gerados.

Mas, um dos pontos mais importantes da marca é a preocupação em desenvolver produtos de alta durabilidade e qualidade para que seus clientes não precisem comprar roupas por um bom tempo [você deve lembrar da campanha “Don´t buy this jacket” publicada na época do black friday americano, certo?].

“Não podemos ser uma sociedade baseada no consumo e descarte sem limite. O que estamos tentando fazer é produzir roupas que possam ser repassadas e que possam durar para sempre”, Yvon Chouinard.

A Patagonia acredita nos 5 R´s – Reduzir o que se compra, Reparar o que pode, Reutilizar o que se tem e Re-Imaginar um mundo sustentável. Para o Yvon a coisa mais responsável que podemos fazer ao comprar roupas é, número um, comprar roupas usadas, pois o dano já foi feito ao produzi-las. Por isso, a Patagonia incentiva e facilita o processo de troca e/ou venda das peças usadas de seus clientes, e, também, recicla as roupas já desgastadas transformando-as em uma nova fibra ou tecido.

A marca também criou o programa Worn Wear que celebra as histórias por trás de uma peça de roupa, ajudando-as a seguirem seu ciclo de vida através de oficinas de reparos que disponibilizam para seus clientes.

Todo mundo tem alguma peça no armário que conta uma história, uma aventura, um momento importante na vida. Cada uma nos traz uma lembrança e, é exatamente o que a Patagonia quer celebrar. “Celebrate the stuff you already own”. Aquela peça que te acompanha há muito tempo ou aquela jaqueta que passou por todos os seus irmãos antes de você usar. Conheça algumas histórias aqui.

Uma das frases favoritas de Yvon Chouinard é a do Henry David Thoreau em que diz: “Cuidado com qualquer empreendimento que exige roupas novas”. Afinal, roupas tem significado, carregam histórias e devemos dar mais valor à elas 🙂

 


Referências

http://www.patagonia.com/us/patagonia.go?assetid=2329

http://www.patagonia.com/us/worn-wear/

http://www.expoknews.com/caso-de-exito-de-rse-patagonia/

https://www.visualnews.com/2015/08/03/brandcrush-3-reasons-to-love-and-learn-from-patagonia/

http://mundodasmarcas.blogspot.com.br/2014/08/patagonia.html

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A escravidão escondida entre as máquinas de costura

 

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Crédito foto: Renato Bignami | Repórter Brasil

Notícias sobre o cenário de violações de direitos em que muitos trabalhadores da indústria têxtil estão submetidos não são novidade. Mas, engana-se quem pensa que trabalho análogo ao escravo, trabalho infantil, péssimas condições e jornadas exaustivas são problemas distantes do Brasil, infelizmente essa situação está bem próxima de nós.

Quer um exemplo? Essa semana auditores do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo, do Ministério do Trabalho e Emprego responsabilizaram a empresa Brooksfield Donna por trabalho escravo e infantil. Foram encontrados em uma pequena oficina no bairro de Aricanduva, em São Paulo, cinco trabalhadores bolivianos, incluindo uma menina de 14 anos, que viviam e trabalhavam em condições precárias. O grupo não tinha carteira assinada ou férias e os salários dependiam da quantidade de peças produzidas (R$6,00 em média por roupa costurada). Leia a matéria completa aqui.

Este é mais um caso triste e vergonhoso que vem mascarado em roupas de luxo que podem ultrapassar R$ 500,00. Infelizmente há muitos outros envolvendo marcas nacionais. A ONG Repórter Brasil acompanha as fiscalizações nas confecções desde 2009 (aqui estão algumas marcas que já foram flagradas nessa situação).

Mas o que caracteriza um trabalho escravo nos dias de hoje?

De acordo com o artigo 149 do Código Penal brasileiro, esse tipo de relação se dá quando: existem condições degradantes de trabalho, jornada exaustiva, trabalho forçado e servidão por dívida. Em resumo, todo o regime de trabalho humilhante que prive o trabalhador de sua liberdade, além de ferir sua dignidade.

Estima-se que atualmente mais de 40 milhões de homens, mulheres, crianças e adolescentes no mundo vivam nessa situação, atuando em diversos setores para fabricação de produtos que consumimos diariamente.

No Brasil a existência do trabalho escravo contemporâneo foi reconhecido pelo governo em 1995, sendo uma das primeiras nações do mundo a admitir o problema em seu território. Até 2013, os maiores indices eram encontrados em atividades econômicas rurais, porém a partir deste ano as violações  se deram principalmente na zona urbana, em setores como a construção civil e têxtil.

O número de crianças e adolescentes que trabalham em confecção e comércio de tecidos, artigos de vestuário e acessórios também é alarmante, estima-se que mais de 114 mil encontram-se nessa situação apenas no país.

Buscando, justamente, sensibilizar e conscientizar os consumidores, entre os dias 16 a 22 de junho a Fashion Revolution Brasil organizou em São Paulo a sua segunda edição do Fashion Experience. A instalação, realizada juntamente com o Ministério Público do Trabalho, a organização internacional 27 Million e o movimento global Stop The Traffik, simulava uma loja itinerante com ofertas de roupas a R$9,90. Ao entrar o visitante se deparava com uma oficina de costura em condições precárias. O objetivo da ação era impactar, mas também mostrar alternativas e possibilidades de mudança, além da importância do consumo consciente. Saiba mais sobre a ação aqui.

Ações como da Fashion Revolution Brasil são fundamentais para despertar a consciência e  percepção do nosso protagonismo como consumidores. Temos um poder gigante nas mãos e precisamos colocar isso em pratica! Devemos sempre  questionar as marcas e exigir mais transparência! É nossa responsabilidade também  saber qual a procedência dos produtos que compramos!!

Façamos disso um lema: #quemfezminhasroupas?

Saiba mais sobre o assunto:

Trabalho Escravo Contemporâneo – 20 anos de combate no Brasil – Repórter Brasil 

Global Slavery Index – Region Analysis – The Americas 

Fashion Revolution

Conheça Ongs que trabalham para erradicação do trabalho escravo e tráfico de pessoas:

27 Million

Stop The Traffik 

Conhece algum caso de trabalho escravo? Denuncie aqui.


Referências

https://www.walkfree.org/modern-slavery-facts/

http://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-escravo/WCMS_393066/lang–pt/index.htm

http://www.ilo.org/brasilia/noticias/WCMS_476140/lang–pt/index.htm

http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36574637

http://reporterbrasil.org.br/trabalho-escravo/

http://www.inpacto.org.br/2015/06/oit-alerta-168-milhoes-de-criancas-realizam-trabalho-infantil-no-mundo/

http://escravonempensar.org.br/livro/capitulo-1/

http://fashionrevolution.org/

E agora Fast Fashion?

e agora fast fashion

Em seu discurso no Copenhagen Fashion Summit 2016 Livia Firth, fundadora do Eco-Age, afirma que nada mudará se o modelo de negócio da indústria do fast fashion continuar como está. Isso é, produzindo enormes quantidades de roupas em um prazo incrivelmente curto e a um custo extremamente baixo, continuando a nos encorajar a participar desse ciclo de consumo desenfreado que é totalmente insustentável.

“It is time for us to be active citizens, to be active consumers, we can’t demand for change unless we stop this cycle of thoughtless consumption that the fast fashion brands are dictated to us”, diz Firth.

E não podemos discordar. A indústria do fast fashion nos viciou. Entramos nesse ciclo de compras sem fim acreditando que mais uma peça de roupa é igual a felicidade/satisfação/status/poder/sedução/_______. Essa moda rápida e descartável não é o que moda significa. Moda é expressão, arte, é modo de ser/agir.

O fast fashion, “moda rápida”, surgiu no final do século XX, a partir de uma nova estratégia de produção no cenário da moda, levando as tendências das passarelas para os consumidores de forma rápida e a preços acessíveis. O sistema para funcionar bem requer inúmeras coleções, com grande variedade de modelos e peças novas o tempo todo,  retirando das araras o que não vende e repondo o que vende. O lema é: mais é sempre mais. Mais roupas, mais consumo, mais vendas, mais lucro.

Com novidades a todo momento, as marcas fast fashion são desenhadas para nos fazer sentir que estamos sempre “fora da moda”. Esqueça primavera/verão – outono/inverno, pois,  atualmente somos bombardeados com mais de 50 “micro estações” a cada ano. O objetivo é nos incentivar a comprar mais peças possíveis e rapidamente. Mas, se por acaso não compramos o suficiente, as marcas não se preocupam, pois as peças dificilmente duram mais que duas lavagens. São feitas com essa intenção já que o sistema depende do desejo dos consumidores de comprar roupas novas para usar. A lógica do use e descarte.

Mas o que há de errado nesse modelo? Por um lado podemos desfilar a todo momento peças novas a preços baratíssimos, mas por outro, se analisarmos toda a cadeia de produção, alguém está pagando caro por isso. Recursos naturais estão sendo usados irresponsavelmente,  como se fossem infinitos, além do uso de pesticidas e outras substâncias tóxicas, das péssimas condições de trabalho, muitas análogas à escravidão e aumento da produção do lixo têxtil. Não é difícil perceber que esse modelo é realmente insustentável, correto?

A boa notícia é que nós, consumidores, estamos cada vez mais informados e conscientes a respeito desse lado menos glamoroso do fast fashion e da indústria da moda. Nos últimos anos, notícias sobre os impactos causados por essa indústria ganharam mais destaque e estamos mais exigentes, obrigando as marcas a serem transparentes e a tomarem atitudes a respeito. Não estamos falando de criar coleções “sustentáveis” ou “eco” que algumas lançaram e que não passam de um “marketing verde”, mas, sim, de adotar ações efetivas no quesito ambiental, social e cultural em toda a cadeia de produção.

Em paralelo, vemos novas marcas e iniciativas surgindo com o propósito de oferecer uma alternativa para o consumo de moda atual. Coleções mínimas e produção mais lenta, respeitando o tempo, o meio ambiente e a mão de obra. Marcas que vão além do simples fato de vender, mas sim, que pensam em todo o ciclo, da produção até o descarte. Há também bons exemplos de projetos que incentivam a troca e a transformação de roupas. É um novo modelo surgindo e, isso é incrivelmente animador!!!

Como disse Livia Firth, precisamos quebrar esse ciclo atual e começar um novo, mais ético e mais justo para todos.

Veja seu discurso aqui (em inglês).

Não esqueça de ver as marcas e projetos que já estão fazendo a diferença, passa lá no site SDF 🙂


Referências

http://www.huffingtonpost.com/shannon-whitehead/5-truths-the-fast-fashion_b_5690575.htm