Trabalho manual e a valorização de técnicas artesanais na moda

 

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Photo by Olliss on Unsplash

Um dos valores do movimento Slow Fashion é a valorização do trabalho manual e de técnicas artesanais e culturais. O artesanato é útil, prático e concreto, significa fazer algo de fato. É uma atividade lenta, com habilidades que amadurecem com o tempo, que se desenvolve conforme o artesão pensa, reflete e testa os limites de sua atividade.

Indo na contramão dos processos industriais e à produção em série, o trabalho artesanal valoriza o engajamento social e o compartilhamento de conhecimento, é reflexivo e produz objetos autênticos cheios de significado cultural. Por essas características têm um papel importante no desenvolvimento de práticas sustentáveis.

Na produção artesanal, quantidade e velocidade perdem espaço, cada artesão tem seu ritmo e capacidade de produção e, por isso, nos propõe um senso de moderação ao consumo.

Além disso, segundo Kate Fletcher e Lynda Grose no livro Moda e Sustentabilidade – Design para Mudança, o artesanato é político, “uma expressão de valores de produção, relações de poder, tomadas de decisão e pragmatismo. O artesanato pode sugerir que produzamos o suficiente para nosso consumo pessoal ou que produzamos como protesto contra, por exemplo as péssimas condições de trabalho dos operários nas fábricas de roupas e aos impactos negativos ambientais, porque o artesanato permite controlar mais de perto as condições de produção e a procedência do material”, afirmam.

Nos últimos anos vimos crescer o movimento de Do It Yourserf (Faça você mesmo), que tem em sua base a ideia de que qualquer pessoa pode construir, consertar e fabricar os mais diversos objetos e projetos.

“A técnica prática surgida da experiência serve para influenciar uma agenda econômica e social que prefira qualidade à quantidade, a confecção ativa ao consumo passivo, a autonomia à dominação, e a rebelião à aceitação. Tais práticas podem ajudar os usuários a participar da moda em nível mais profundo do que como consumidores e a se conectar com os materiais, as habilidades e a linguagem necessários para a criação de objetos físicos e um admirável mundo novo de ideias sustentáveis” (Fletcher e Grose, 2011).

As atividades manuais incentivam a participação, autonomia e a experimentação, nos convidam a fazer com as mãos e a conhecer e valorizar as técnicas tradicionais e as culturas locais.

 


Referências

Livro Moda e Sustentabilidade – Design para Mudança, de Kate Fletcher e Lynda Grose

Hur, ES and Beverley, KJ (2013) The role of craft in a co-design system for sustainable fashion, disponível em: http://eprints.whiterose.ac.uk/81260/

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Faça parte da revolução da moda! Conheça o movimento Fashion Revolution Brasil

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campanha fashion revolution #quemfezminhasroupas #whomademyclothes

Uma das maiores tragédias industriais da história, o desabamento do edifício Rana Plaza que abrigava um complexo de fábricas têxteis em Bangladesh, marcou para sempre a indústria da moda. No dia 24 de abril de 2013, mais de mil trabalhadores morreram após o edifício ruir, tornando-se símbolo do descaso dos direitos de trabalhadores presente no setor.

Logo após essa fatalidade, o movimento global Fashion Revolution nasceu para convidar as pessoas a usarem o poder da moda para mudar a história dos trabalhadores ao redor do mundo, tornando-a uma força para o bem.

“We believe in an industry that values people, the environment, creativity and profit in equal measure. Our mission is to bring everyone together to make that happen” Fashion Revolution.

 O SDF conversou com a Eloisa Artuso, Coordenadora Educacional do Fashion Revolution Brasil, para nos contar um pouco mais sobre a história do movimento e sua atuação no país.

 Vamos fazer parte dessa revolução!

 Conte para a gente como o movimento surgiu e desde quando está aqui no Brasil?

O Fashion Revolution é um movimento global, presente em mais de 90 países, criado pela Carry Somers e Orsola de Castro, que acompanhadas de um grupo de estilistas, acadêmicos, imprensa e ativistas, decidiram dar um basta nas condições degradantes de trabalho escondidas na cadeia produtiva da moda.

O desabamento do Rana Plaza, em Bangladesh, em 24 de abril de 2013, serviu de marco para o surgimento da campanha, que tem como objetivo conscientizar os consumidores sobre os verdadeiros impactos ambientais e sociais causados pela indústria da moda no mundo e, ao mesmo, celebrar quem já trabalha na construção de um futuro mais transparente e  justo para todos. Ele chegou no Brasil através da Fernanda Simon, que, logo no primeiro ano de celebração, em 2014, trouxe a discussão para diferentes eventos de moda, design e sustentabilidade.

Quais são os principais objetivos do Fashion Revolution? E como ele atua?

O movimento surgiu com os objetivos de:

• aumentar a conscientização sobre o verdadeiro custo da moda e seus impactos em

todas as fases do processo de produção e consumo;

• mostrar ao mundo que a mudança é possível através da celebração dos envolvidos na criação de um futuro mais sustentável;

• criar conexões e trabalhar rumo à mudanças de longo prazo, exigindo transparência

na indústria e nos negócios.

O Fashion Revolution atua com bastante força nos canais de comunicação online e também propõe palestras, eventos e ações ao redor do mundo através de 2 grande frentes, a de informação/educação e sensibilização/conscientização.

Vocês acreditam que está havendo uma mudança no comportamento dos consumidores em relação ao consumo de moda? Porque acreditam que isso está acontecendo e como o movimento colabora para essa mudança?

No Brasil, ainda é bastante recente a discussão sobre sustentabilidade e consumo consciente na moda, mas já é possível sentir uma diferença de comportamento consumidor. Ainda são poucos os que realmente se interessam pela origem dos produtos e questionam de fato o que consomem, mas já dá pra notar que esse mercado (independente) está crescendo com rapidez, tanto por vontade das marcas, quanto dos consumidores.

O Fashion Revolution colabora ao incentivar as pessoas a questionarem as marcas sobre a origem de suas roupas (calçados, bolsas, joias e acessórios também valem) e exigirem maior transparência com relação aos seus modelos de negócio. Esse é o primeiro passo para uma abertura de diálogo entre produtor-marca-consumidor, uma maneira de reconectar os elos perdidos em uma cadeia tão complexa como a da moda. Essa pergunta também ajuda a abrir os olhos do consumidor, que passa a ficar mais informado e consciente sobre o que realmente pode estar por trás do que vestimos.

Como vocês avaliam as ações e resultados desde o primeiro ano do movimento?

Os resultados têm sido bastante animadores, o número de pessoas envolvidas com o movimento, seja como colaborador, parceiro ou audiência cresce com bastante rapidez. Só aqui no Brasil, em 2016, tivemos 54 eventos em 29 cidades durante a Fashion Revolution Week (24 a 30 de abril) e a participação de mais de 30 faculdades de moda na campanha, isso sem contar todo o fluxo nas mídias. Além disso, tivemos a ação de conscientização, Fashion Experience, por 2 vezes na cidade de São Paulo, sensibilizando mais de 2 mil pessoas.

O movimento tem uma forte atuação nas instituições de ensino de moda, para vocês, qual a importância da educação e papel dos estudantes para modificar o cenário atual do setor?

O papel da educação é extremamente importante, já que as faculdades são responsáveis pela qualidade de profissionais que entrarão no mercado e passarão a tomar as decisões no futuro, e essas decisões geram consequências para todos. Não se pode fechar os olhos para as questões éticas e de sustentabilidade só porque elas representam desafios para o sistema de mercado vigente, na verdade, elas devem ser encaradas como soluções para o futuro, que depende inteiramente de pessoas bem preparadas para enfrentá-los.

Como as pessoas podem participar do Fashion Revolution?

O movimento é aberto para todos os amantes da moda e aqueles que acreditam no poder de transformação. A maneira mais fácil de participar e apoiar o movimento é postando uma selfie e perguntando à marca que está vestindo: “quem fez minhas roupas?” e usando as hashtags: #whomademyclothes #quemfezminhasroupas #fashrev. Para quem quiser saber mais sobre o movimento, como participar da campanha ou de eventos, podem acompanhar o Fashion Revolution Brasil através das nossas redes sociais:

Facebook: fashionrevolution.brasil

Instagram: @fash_rev_brasil

Twitter: @Fash_Rev_BRASIL

www.fashionrevolution.org

O que vocês esperam do movimento para os próximos anos?

Esperamos que ele continue crescendo e tenha uma vida longa aqui no Brasil e ao redor do mundo, informando, conscientizando e envolvendo cada vez mais consumidores, marcas, indústria, imprensa e governos na a criação de melhores condições de trabalho, processos mais limpos e formas de consumo mais conscientes.

Acompanhe o movimento pelo site www.fashionrevolution.org e suas redes sociais.

>> Fashion Revolution Week 2017 | Brasil <<

 Para realização da Fashion Revolution Week 2017, que acontecerá nos dias 24 a 30 de abril, o Fashion Revolution Brasil está com uma campanha de financiamento coletivo no site Benfeitoria e conta com a ajuda de todos os revolucionários da moda para fazer acontecer!

 Com o valor arrecadado será possível a produção de 4 grandes eventos nacionais, em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, que contarão com workshops práticos, exposições, exibições de filmes, entre outras atividades.

Para cada contribuição, o Fashion Revolution Brasil preparou várias recompensas. Informações sobre a campanha aqui. Colabore 🙂

Sobre sustentabilidade e gratidão

Você conhece a expressão japonesa Mottainai? Tiemi Yamashita, especialista em sustentabilidade nos contou tudo sobre esse conceito.

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foto por Gaelle Marcel, site unsplash

Já falamos no Blog SDF que hoje tratamos nossas roupas e muitas coisas que compramos como bens descartáveis, gerando quantidades imensas de resíduos e impactos negativos ao planeta. Mas aqui vem mais uma bela razão do porque precisamos repensar essa cultura do use e descarte!

Mottainai, significa “o não desperdício”. Essa expressão japonesa nos ensina a “reconhecer o valor de todos os recursos ao nosso redor e, a partir disso, aproveitar tudo com respeito e gratidão, eliminando o desperdício”.

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Tiemi Yamashita

O SDF conversou com Tiemi Yamashita, referência em Mottainai no Brasil, criadora de projetos inovadores que mesclam responsabilidade socioambiental e desenvolvimento humano como Desafio do Bem e Caia na Real, além de professora convidada nos módulos de sustentabilidade dos cursos de MBA do Biinternational School e pela Faculdade Cásper Libero de São Paulo, para nos explicar esse conceito e como podemos aplicá-lo no nosso dia a dia para consumirmos com mais consciência e sem desperdício.

Primeiramente poderia contar um pouco de sua história e sua relação com o tema sustentabilidade?

Neta de japoneses, cresci dentro de uma cultura em que não se desperdiça nenhum tipo de recurso, pois tudo tem seu valor e precisa ser respeitado e valorizado.  Confesso que eu não entendia e até reclamava de ficar aproveitando a água da chuva, reaproveitando embalagens de margarina, usando roupas que já foram usadas pelos irmãos mais velhos. Mas depois de adulta fui fazer um curso de especialização em Sustentabilidade e descobri que o primeiro passo para praticarmos a sustentabilidade  é eliminar os desperdícios. Entendi que eu já praticava sustentabilidade desde pequena.

O que significa Mottainai e qual sua importância na cultura japonesa? E como ele está relacionado com a sustentabilidade?

Mottainai é uma expressão japonesa que geralmente quer dizer “desperdício” porém, o verdadeiro significado da palavra é MOTTAI –  DIGNO   e NAI – NÃO , ou seja   na verdade o significado é “não ser digno”.

Quando você escuta um japonês dizer “Mottainai”, ele não está simplesmente dizendo “que desperdício”  ele está dizendo “você não está sendo digno deste recurso!”.  Acho que isso é o cerne da sustentabilidade, se nós formos dignos de todos os recursos que possuímos, teremos atitudes mais sustentáveis.

Você acredita que o conceito Mottainai colabora com a vida das pessoas?

Sim, quando entendemos o conceito do Mottainai, passamos a ter escolhas mais conscientes.  Não só entendemos, mas principalmente sentimos os desperdícios e por isso fazemos escolhas  mais  sustentáveis.

Como você analisa o consumo na sociedade atual e como nos relacionamos com o desperdício?

O consumo na sociedade atual é insustentável. Um consumo focado no “TER” para ostentar.  É preciso lembrar que quando se compra algo ele é seu 24 horas por dia e 7 dias da semana. E quanto você de fato usa?  Pensar em sustentabilidade é pensar na usabilidade de tudo o que se consome.

Já faz alguns anos que os temas sustentabilidade e consumo consciente vem ganhando cada vez mais destaque, na sua opinião as pessoas e empresas estão realmente se preocupando com as questões socioambientais? Você acredita que está havendo uma mudança no comportamento das pessoas e das empresas?

Sim, principalmente com a crise econômica que está provocando mudanças em todos os níveis. A falta de dinheiro para comprar as roupas novas, está fazendo com que sejam aceitas novas formas de consumir ou de reaproveitar ou reciclar. As pessoas estão mudando para casas menores e estão tendo que escolher o que realmente importa, percebendo que ter demais também dá trabalho. Tem uma frase que diz assim: Quanto menos eu consumo, percebo que menos eu preciso. Quanto menos eu preciso, mais livre me sinto.

Consumir menos não é se sentir mais pobre ou inferior, é entender que precisamos de menos e consumir menos é libertador.

Como praticar o Mottainai no dia a dia e consumir de forma consciente em um mundo cheio de excessos?

Para praticar o Mottainai é preciso seguir 3 passos simples:

  1. Dar o valor –  Isto é, se perguntar: Qual o real valor deste recurso? Indo muito além do valor monetário. Por exemplo, qual o valor da água para minha vida?

  2. Reconhecer a Cadeia –  Reconhecer que para esse recurso chegar até você, ele passa por uma longa cadeia de extração, produção e comercialização. Um alimento passa por milhares de mãos, dezenas de processos até chegar a sua mesa. Com o objetivo de nos alimentar.

  3. Sentimento de Gratidão –  Depois de dar o valor e reconhecer a cadeia, sentimos gratidão por termos acesso a este recurso, pois muitas pessoas no planeta não tem acesso a recursos básicos.

E como podemos demonstrar Gratidão de forma concreta? Não desperdiçando nada.

Nesse vídeo a Tiemi Yamashita fala um pouco mais sobre consumo consciente e sustentabilidade, vale a pena conferir.

Para saber mais sobre o Mottainai e o trabalho da Tiemi acompanhe seu site e canal no youtube.

Site: www.mottainaisustentabilidade.com.br

Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCB7v-F6nkvyV-vNlXqVrMbQ

Email: tiemi@mottainaisustentabilidade.com.br

Porque precisamos entender como funciona a produção de nossas roupas

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Estamos tão desconectados da fabricação de nossas roupas e das coisas que compramos que é muito comum esquecermos que, por trás da produção de uma simples peça, há uma longa cadeia que envolve inúmeras pessoas e recursos. Do cultivo do algodão até transformá-lo em fio e depois em tecido, do tingimento à costura, do transporte e distribuição às lojas.

A cadeia produtiva têxtil e de vestuário geralmente é bem vasta e complexa. Para termos uma ideia dessa complexidade, o infográfico abaixo – desenvolvido pela equipe Scraps: Fashion Textiles and Creative Reuse – nos ajuda a visualizar todas as etapas.

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para visualizar em português use o app do google tradutor

 

Quanto mais extensa for essa cadeia mais difícil para a empresa conseguir manter o controle sobre ela. A grande maioria das marcas hoje terceirizam sua produção e, muitas delas, não sabem onde, por quem e em que condições são feitos seus produtos.

Se desconhecemos o que está acontecendo, como corrigir o problema? Por isso, o primeiro passo para a mudança é a transparência.

E é acreditando nisso que a Ong inglesa Fashion Revolution juntamente com a Ethical Consumerpublicaram um relatório chamado Fashion Transparency Index (índice de transparência na moda, em tradução livre) que classifica as empresas de acordo com o nível de transparência em sua cadeia de suprimentos.

A primeira edição do Fashion Transparency Index inclui 40 das maiores marcas globais de moda, que foram selecionadas com base no volume de negócios anual. O objetivo foi descobrir o que essas empresas estão fazendo para melhorar os padrões sociais e ambientais e o quanto dessas informações são compartilhadas com o público. Veja as marcas aqui.

“Being transparent creates the opportunity for collaborative action between companies, governments, NGOs, unions and the public to work towards building a fairer, cleaner and safer fashion industry”, Fashion Transparency Index.

Outra iniciativa que ajuda a identificar práticas das empresas é a Know the Chain, que avaliou os esforços de 20 empresas do setor de vestuário e calçados para proteger e erradicar o trabalho análogo ao escravo em suas cadeias produtivas globais. Veja as marcas aqui.

A marca de roupas esportivas Patagonia é referência no setor, pois informa aos seus clientes todo o ciclo de produção de uma peça e quais os custos ambientais e sociais para que ela seja feita. Todas as informações estão disponíveis no site da marca. Veja o mini documentário “Fair Trade: the first step” (comércio justo, o primeiro passo) realizado pela marca.

Já a empresa americana Planet Money criou uma série de vídeos no qual explica, em cada capítulo, uma etapa do processo de fabricação de sua camiseta. O objetivo é contar a história das roupas e das pessoas por trás delas.

No Brasil, vemos iniciativas como a Moda Livre, já citada no Blog SDF, um aplicativo avalia as principais varejistas de roupa do Brasil e empresas que já foram flagradas pelos fiscais do Ministério do Trabalho (MTE) em casos de trabalho escravo.

Além de marcas como Flavia Aranha e Catarina Mina, que expõem ao consumidor todas as informações a respeito das etapas de suas produções e as pessoas envolvidas. Muitas marcas estão adotando ferramentas que ajudam a rastrear todo o processo de produção e buscam certificações, como a Certificação de Fornecedores – ABVTEXe o Sistema B, por exemplo.

Já como consumidores, a partir do momento que temos informações a respeito e entendemos como são fabricadas as peças de roupas, calçados ou qualquer coisa que compramos, temos mais consciência de todo esforço e recursos necessários. Como consequência, faremos melhores escolhas em cada compra, além de pressionar as empresas e governos por mais transparência e soluções.

Sabemos que qualquer produto para existir gera impactos, sociais e ambientais, por isso, informação e transparência são fundamentais para que as marcas possam identificar e ajustar os problemas encontrados.


Referências

http://www.ecouterre.com/this-graphic-sums-up-how-complex-the-fashion-supply-chain-is/

http://fashionrevolution.org/wp-content/uploads/2016/04/FR_FashionTransparencyIndex.pdf

http://fashionrevolution.org/como-a-transparencia-pode-ajudar-a-transformar-a-industria-da-moda/

Patagonia: histórias por trás das roupas

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Foto Instagram @patagonia

“Fabricar o melhor produto, não causar dano desnecessário, e usar o negócio para inspirar e implementar soluções à crise ambiental“, essa é a missão da marca californiana Patagonia que com mais de 30 anos no mercado produzindo roupas esportivas para práticas de esporte ao ar livre, segue fiel aos seus valores e é referência em práticas sustentáveis.

Yvon Chouinard, alpinista, amante da natureza e fundador da marca percebeu que seu modelo de negócio, desde a iluminação em suas lojas até o tingimentos das camisetas, geraria poluição e impactos, por isso, se comprometeu a reduzi-los com ações efetivas em toda a cadeia de produção e pós-consumo da marca.

Já nos primeiros anos de vida a Patagonia adotou o uso de materiais naturais e recicláveis para o desenvolvimento de todas as peças. Desde 1985, doa 1% de sua receita ou 10% do seu lucro (o que for maior) para grupos de proteção do meio ambiente.

A empresa é transparente em relação as suas informações e práticas, disponibilizando em seu site o código de conduta e condições de trabalho e, também publica anualmente as listas das fábricas e resultados das auditorias. Além disso, em 2007, criou o programa The Footprint Chronicles® que disponibiliza informações de cada produto, além de contar a história de todos os envolvidos na cadeia produtiva. O programa tem como objetivo ajudar a reduzir os impactos sociais e ambientais gerados.

Mas, um dos pontos mais importantes da marca é a preocupação em desenvolver produtos de alta durabilidade e qualidade para que seus clientes não precisem comprar roupas por um bom tempo [você deve lembrar da campanha “Don´t buy this jacket” publicada na época do black friday americano, certo?].

“Não podemos ser uma sociedade baseada no consumo e descarte sem limite. O que estamos tentando fazer é produzir roupas que possam ser repassadas e que possam durar para sempre”, Yvon Chouinard.

A Patagonia acredita nos 5 R´s – Reduzir o que se compra, Reparar o que pode, Reutilizar o que se tem e Re-Imaginar um mundo sustentável. Para o Yvon a coisa mais responsável que podemos fazer ao comprar roupas é, número um, comprar roupas usadas, pois o dano já foi feito ao produzi-las. Por isso, a Patagonia incentiva e facilita o processo de troca e/ou venda das peças usadas de seus clientes, e, também, recicla as roupas já desgastadas transformando-as em uma nova fibra ou tecido.

A marca também criou o programa Worn Wear que celebra as histórias por trás de uma peça de roupa, ajudando-as a seguirem seu ciclo de vida através de oficinas de reparos que disponibilizam para seus clientes.

Todo mundo tem alguma peça no armário que conta uma história, uma aventura, um momento importante na vida. Cada uma nos traz uma lembrança e, é exatamente o que a Patagonia quer celebrar. “Celebrate the stuff you already own”. Aquela peça que te acompanha há muito tempo ou aquela jaqueta que passou por todos os seus irmãos antes de você usar. Conheça algumas histórias aqui.

Uma das frases favoritas de Yvon Chouinard é a do Henry David Thoreau em que diz: “Cuidado com qualquer empreendimento que exige roupas novas”. Afinal, roupas tem significado, carregam histórias e devemos dar mais valor à elas 🙂

 


Referências

http://www.patagonia.com/us/patagonia.go?assetid=2329

http://www.patagonia.com/us/worn-wear/

http://www.expoknews.com/caso-de-exito-de-rse-patagonia/

https://www.visualnews.com/2015/08/03/brandcrush-3-reasons-to-love-and-learn-from-patagonia/

http://mundodasmarcas.blogspot.com.br/2014/08/patagonia.html

E agora Fast Fashion?

e agora fast fashion

Em seu discurso no Copenhagen Fashion Summit 2016 Livia Firth, fundadora do Eco-Age, afirma que nada mudará se o modelo de negócio da indústria do fast fashion continuar como está. Isso é, produzindo enormes quantidades de roupas em um prazo incrivelmente curto e a um custo extremamente baixo, continuando a nos encorajar a participar desse ciclo de consumo desenfreado que é totalmente insustentável.

“It is time for us to be active citizens, to be active consumers, we can’t demand for change unless we stop this cycle of thoughtless consumption that the fast fashion brands are dictated to us”, diz Firth.

E não podemos discordar. A indústria do fast fashion nos viciou. Entramos nesse ciclo de compras sem fim acreditando que mais uma peça de roupa é igual a felicidade/satisfação/status/poder/sedução/_______. Essa moda rápida e descartável não é o que moda significa. Moda é expressão, arte, é modo de ser/agir.

O fast fashion, “moda rápida”, surgiu no final do século XX, a partir de uma nova estratégia de produção no cenário da moda, levando as tendências das passarelas para os consumidores de forma rápida e a preços acessíveis. O sistema para funcionar bem requer inúmeras coleções, com grande variedade de modelos e peças novas o tempo todo,  retirando das araras o que não vende e repondo o que vende. O lema é: mais é sempre mais. Mais roupas, mais consumo, mais vendas, mais lucro.

Com novidades a todo momento, as marcas fast fashion são desenhadas para nos fazer sentir que estamos sempre “fora da moda”. Esqueça primavera/verão – outono/inverno, pois,  atualmente somos bombardeados com mais de 50 “micro estações” a cada ano. O objetivo é nos incentivar a comprar mais peças possíveis e rapidamente. Mas, se por acaso não compramos o suficiente, as marcas não se preocupam, pois as peças dificilmente duram mais que duas lavagens. São feitas com essa intenção já que o sistema depende do desejo dos consumidores de comprar roupas novas para usar. A lógica do use e descarte.

Mas o que há de errado nesse modelo? Por um lado podemos desfilar a todo momento peças novas a preços baratíssimos, mas por outro, se analisarmos toda a cadeia de produção, alguém está pagando caro por isso. Recursos naturais estão sendo usados irresponsavelmente,  como se fossem infinitos, além do uso de pesticidas e outras substâncias tóxicas, das péssimas condições de trabalho, muitas análogas à escravidão e aumento da produção do lixo têxtil. Não é difícil perceber que esse modelo é realmente insustentável, correto?

A boa notícia é que nós, consumidores, estamos cada vez mais informados e conscientes a respeito desse lado menos glamoroso do fast fashion e da indústria da moda. Nos últimos anos, notícias sobre os impactos causados por essa indústria ganharam mais destaque e estamos mais exigentes, obrigando as marcas a serem transparentes e a tomarem atitudes a respeito. Não estamos falando de criar coleções “sustentáveis” ou “eco” que algumas lançaram e que não passam de um “marketing verde”, mas, sim, de adotar ações efetivas no quesito ambiental, social e cultural em toda a cadeia de produção.

Em paralelo, vemos novas marcas e iniciativas surgindo com o propósito de oferecer uma alternativa para o consumo de moda atual. Coleções mínimas e produção mais lenta, respeitando o tempo, o meio ambiente e a mão de obra. Marcas que vão além do simples fato de vender, mas sim, que pensam em todo o ciclo, da produção até o descarte. Há também bons exemplos de projetos que incentivam a troca e a transformação de roupas. É um novo modelo surgindo e, isso é incrivelmente animador!!!

Como disse Livia Firth, precisamos quebrar esse ciclo atual e começar um novo, mais ético e mais justo para todos.

Veja seu discurso aqui (em inglês).

Não esqueça de ver as marcas e projetos que já estão fazendo a diferença, passa lá no site SDF 🙂


Referências

http://www.huffingtonpost.com/shannon-whitehead/5-truths-the-fast-fashion_b_5690575.htm

Unravel – reciclagem de roupas na Índia

UNRAVEL_MONTAGEMCenas do filme Unravel dirigido por Meghna Gupta

O filme mostra a trajetória das roupas que são descartadas no Ocidente até chegarem a uma pequena fábrica de reciclagem de tecidos da cidade Panipat, no norte da Índia.

Reshma e seus colegas de trabalho conversam sobre como deve ser a vida no Ocidente, enquanto separam e cortam as peças. Usam a imaginação e histórias que já ouviram para sonhar através das roupas que chegam até eles.

Em menos de 14 minutos de duração é possível estabelecer uma relação de empatia pelos moradores de Panipat. Vemos através dos olhos deles como nossas atitudes e costumes influenciam e geram impactos no mundo.

Lindo, inspirador e uma ótima dica para começar o feriado. Aproveite 🙂

Assista aqui.